O texto contemporâneo e despojado de Emiliano Dionisi e as músicas de Martin Rodriguez são a pedra fundamental sobre a qual se estrutura um espetáculo de escolhas estéticas impecáveis e tema próprio de um mundo pós-moderno, malgrado sua atemporalidade. É assunto para qualquer época abordado com os códigos da nossa. Trata-se de um musical maduro e original. É raro uma peça de teatro musical que consiga ser tão adulta, sombria e irreverente, ao mesmo tempo.

As músicas gozam de grande autenticidade, que, apesar de manterem-se dentro do padrão estilítico do que é um musical comercial à la Broadway, não se parecem com nenhum outro musical – o que intriga, pois muitas vezes ao assistir a outros musicais tem-se a impressão de que algumas músicas são em verdade variações umas das outras.

A dramaturgia concentra-se na parentalidade, com suas vicissitudes. As dores de se ser pai e mãe são o foco explorado por Dionisi e o caráter falho e às vezes monstruoso dos seres humanos em exercício da função pa/maternal é colocada na vitrine e cantada como uma grande ode à essa aventura que é ver sua vida continuada em outro corpo, que é dar vida a e fazer crescer um outro coração. Há espaço para se rir da própria natureza da relação entre pais e filhos, dos erros (recorrentes e inusitados) e há uma espetacularização inédita desta seara afetiva que geralmente é tratada na dramaturgia com conflito tradicional, sentimentalismo, idealização ou saudosismo. É uma abordagem assaz original do que é ser pai e do que pode vir a ser, na consecução natural da vida que passa, a dinâmica mental de pessoas que levam adiante esse desafio de acompanhar e educar uma outra. O fracasso dos pais é um ponto intrigante, o fato de não se saber o que fazer, de não haver fórmula, de poder simplesmente dar tudo errado, é que torna o enredo das personagens Cláudio e Sandra muito real e muito novo.

As expectativas, os sonhos, desejos, projeções, tanto dos pais quanto dos filhos são o elemento principal na montagem. São os impulsos e emoções à flor da pele, referentes a uma missão irrenunciável e inexorável na vida de alguém: ser pai, ser filho, o que isso significa?

O premiado espetáculo argentino ganha muito com as interpretações dos dois grandes atores brasileiros e a visão de Peralta confere ao musical dramaticidade ímpar.

A família como conhecemos é colocada em xeque e o elo fundamental do afeto é colocado sob o microscópio, de forma a permitir reflexão sobre que tipo de pais queremos ser, que tipo de filhos somos.

A linha dramatúrgica é simples e quase irregular, no sentido de que as personagens relacionam-se livremente, sem cronologia muito marcada e acontecem verdadeiros quadros, flashes, fragmentos, que vão contando as duas histórias que se cruzam em algum momento. Da mesma forma, a curva dramática é bem trabalhada e, apesar de ter seu ápice do meio cronológico na peça, termina deixando o espectador em grande frisson, termina lá em cima.

Para além dos arranjos e acabamento musical muito bem cuidados, a preparação vocal dos atores-cantores é notável e provavelmente é o grande encanto da montagem. Assistir a boas performances de voz cantada é sempre muito bom. Soraya Ravenle tem experiência com musicais teatrais e Cláudio Lins, igualmente, possui formação musical sólida. O encontro dos dois artistas foi bastante feliz.

Peralta assinala as temáticas das relações familiares, educação, infância e, a “dificuldade que temos de nos colocar do lugar do outro, de exercer a empatia”. Para ele, ali “temos um pai e uma mãe que não conseguem olhar de verdade para os seus filhos e que têm dificuldade de lidar com as expectativas frustradas”. Há três anos o diretor assistiu à primeira montagem do texto em Buenos Aires e acabou por trazê-lo ao Rio.

Claudio e Sandra, pessoas aparentemente comuns, e se conhecem porque seus filhos, Francisco e Luíza, estudam na mesma escola. Para eles, seus rebentos são especiais e acima da média, apesar dos probleminhas na escola, com outras crianças, das pequenas faltas do dia-a-dia e das decepções que são quase inevitáveis no desenvolvimento infantil. Esses pais não pretendem admitir facilmente eventuais desvios de conduta de seus filhos, mas também não se conformam com o jeito como eles são. Há um desvendar de uma natureza quase perversa em meio a esse amontoado de emoções e expectativas; essas famílias acabam por surpreender.

Do orgulho ao terror, o texto potente com apenas dois atores chama atenção e foi um dos atrativos que determinou a escolha da peça. “É um desafio para um ator falar das aflições da paternidade e isso é algo com o qual eu me identifico completamente nesse momento da minha vida”, conta Claudio, que tem um filho de 7 anos. Soraya Ravenle ressalta a densidade do texto, que não é habitual nos espetáculos do gênero musical. “É uma peça sofisticada, de dramaturgia contemporânea e fragmentada, que fala muito sobre a violência que nos cerca. Há uma grande incapacidade de enxergar verdadeiramente o outro, de ter calma para compreender quando as atitudes das pessoas não são as mesmas que as nossas. A peça põe em cena uma mãe e um pai que amam os filhos, mas que não conseguem se comunicar com eles”, nota a atriz e cantora.

O espetáculo conta com oito canções originais, com tradução e versões de Victor Garcia Peralta e Claudio Lins e novos arranjos de Azullllllll, que assina a direção musical e está em cena com um set eletrônico. Na montagem argentina, os atores eram acompanhados por uma banda, mas, na adaptação atual, a equipe optou por uma produção eletrônica.

“Uma sonoridade que aborda do imaginário infantil ao terror para criar uma espécie de realidade onírica e cruel. Há também, nos arranjos, a noção ancestral da relação que temos com nossos pais e nossas paternidades e, por isso, um aspecto sensorial e emocional nas canções. Evoco elementos musicais da nossa ancestralidade brasileira e afro-brasileira e recorro, também, a estéticas eletrônicas, como a das séries “Stranger Things” e “Dark”, buscando a contemporaneidade necessária para dialogar com a diversidade cultural que o povo brasileiro carrega e consome”, define Azullllllll. “Cada música adiciona uma camada ao entendimento da peça, fortalecendo a trama e ajudando a conduzir a energia do espetáculo”, acrescenta.

Fernando Rubio assina o cenário, Claudio Tovar, o figurino, e Maneco Quinderé, a iluminação. Este texto foi selecionado em 2015 como melhor projeto de teatro musical na Bienal de Arte Jovem de Buenos Aires. Estreou no mesmo ano, até suas últimas apresentações, em 2018, o espetáculo lotou salas, teve excelentes críticas e cerca de 17 prêmios do teatro argentino, além de montagens no Uruguai e na República Dominicana. Na Argentina, venceu o 1º Prêmio Trinidad Guevara (Melhor trilha original), o 1º Prêmio Argentores (Melhor música), ganhou sete Prêmios Hugo (Hugo de Oro – espetáculo do ano, Melhor musical, Melhor direção, Melhor atriz de musical, Melhor ator de musical, Melhor libreto de musical argentino e Melhores letras de musical argentino) e quatro Prêmios ACE (Melhor Musical, Melhor direção de musical, Melhor ator de musical e Melhor música original). No Uruguai, venceu quatro Prêmios Florencio Sanchez (Melhor musical, Melhor atriz de musical, Melhor ator de musical e Melhor música original).

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