O Japão foi o país homenageado deste ano na Bienal do Livro deste ano no Rio de Janeiro, um dos palestrantes foi a mangaká Reiko Okano, que bateu um papo no Café Literário sobre a espiritualidade dentro da cultura japonesa e como ela reflete em suas obras. Okano nasceu na província de Ibaraki, em 1960, estreou em 1982 com o mangá Ester Please, e é casada com o cineasta Makoto Tezuka (filho de Osamu Tezuka). A autora abordou o tema através de suas quatro obras, que vão deste a cultura zen budista, a tradição da luta de sumo, uma obra que trata de cultura mesopotâmica e por último uma que possui o xintoísmo japonês como base.

Começando com Fancy Dance, escrita em meados dos anos de 1980, trata de um jovem que decide entrar para vida monástica e como tudo isso altera sua vida. A história de passa no auge da música rock no Japão, trazendo o estilo transgressor, o protagonista por ser muito jovem entra em conflito por estar entre esses dois mundos completamente opostos. O trabalho de pesquisa que Reiko fez é notável, transmitido maravilhosamente por seus traços harmoniosos e fluídos, quase como se as linhas dançassem sobre o papel. Ela demonstra na obra os passos que constituem a entrada para vida monástica assim como suas dificuldades, contudo o protagonista encontra alegria entre os dois aspectos de sua vida, praticando o desapegado ensinado na doutrina budista. A segunda obra citada pela mangaká retrata o mundo das lutas de sumô, que possui no ocidente uma visão muito superficial e até estereotipada. Ela novamente aprofunda o significado até do tatame da luta. O ringue quadrado representa a terra, e o círculo no centro representa o céu, para vencer o lutador deve por seu oponente para fora desse círculo central, e por isso que na cultura japonesa o sumô não é necessariamente uma luta, mas uma conquista. O vencedor conquista os Céus, onde só as divindades habitam. Muitos dessas informações culturais que Okano reuniu foram esquecidas até mesmo pelo povo comum do Japão, o que demonstra o profundo respeito que a autora tem por sua tradição e cultura.

Saindo do Japão, Reiko abordou seu mangá baseado na cultura da Mesopotâmia, onde a principal é a deusa Inana, e a obra aborda o sagrado feminina através dessa deusa, mostrando a santidade que toda mulher carrega e a feminilidade que também existe nos homens. Por ultimo tivemos a apresentação da obra Onmyōji, que se passa durante a Era feudal do Império japonês, onde muitos dos personagens, incluindo o protagonista, são baseados em figuras históricas reais. O protagonista é membro da corte imperial, atuando como o que podemos chamar de exorcista real. Através de instrumentos musicais, como a flauta tradicional japonesa, e pelo equilíbrio dos cinco elementos (madeira, metal, água, fogo e terra). Todas os mangás de Okano possuem um trabalho de pesquisa profunda, mas Onmyōji um primor muito particular, que transcende a arte física.

Infelizmente, a mangaká só pode responder a uma pergunta durante sua palestra. Lhe perguntaram qual o conselho que ela poderia dar aos futuros mangakás, brasileiros inclusive, que querem escrever sobre a cultura japonesa sem cair na superficialidade. Com elegância continuo e um sorriso simpático, Reiko disse que além da profunda pesquisa é necessário sentir a energia que exala desses temas, dos templos que possuem historias milenares mesmo sobre as menores coisa, da mesma forma que ela sentiu a energia do Rio de Janeiro neste primeira visita a cidade.

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