Dono de um estilo único que faz uma junção de personagens e situações históricas de diferentes tempos, Glauco Rodrigues sempre mostrou em sua arte um grande potencial crítico. Apesar de sútil, o artista – a partir da inspiração no movimento antropofágico – exibe em suas obras inspirações altamente atuais como a questão indígena, a vida urbana e o carnaval, além da repreensão à ditadura militar criando obras que possuem um tom satírico às mazelas do Brasil, mesmo após 15 anos de sua morte.

Com curadoria de Denise Mattar, a mostra reúne mais de 45 obras de diversas séries do artista, como “Pau-Brasil” (1974), “São Sebastião”(1980), “Madona Brasileira” (1982), “A Sambista” (1979) e “Árvores” (1991). São telas com foco ácido e bem-humorado de Glauco, outra característica do mesmo, que nunca mostrou um caráter dramático em suas peças.

Denise define suas composições como verdadeiras encenações, mesclando imagens de amigos, referências à Eckhout, Debret, Theodore De Bry, Almeida Jr ou Pedro Américo, numa carnavalização canibal desfilando sobre telas brancas, pintadas com requintes de precisão.

Ainda segundo a curadora, no “mis en place” de Glauco Rodrigues estão: a carne substanciosa da arte engajada, cortada com a precisão do hiperrealismo; as flores da pop-art, aromatizadas com a pimenta da sensualidade; os frutos da academia, picados com a faca do sarcasmo; as folhas da pesquisa, rasgadas com a mão. Feita a preparação, ele unta tudo com muita inteligência; tempera com emoção, leva ao forno da ditadura e finaliza com pitadas de ironia. É um artista desconcertante, o melhor cronista da “geleia” geral brasileira, capaz de mostrar o pior e o melhor de nosso país, com o claro entendimento de que essas polaridades ocorrem simultaneamente”

Os fundos brancos, presentes até o fim da ditadura nas obras de Glauco, dão lugar ao estilo tropical em uma nova fase da sua carreira. O Rio de Janeiro continua a ser constantemente celebrado pelo artista com o uso de mais personagens como banhistas e passistas agora abusando da cor mas ainda com seu sarcasmo peculiar. Ele inclui nas peças bananas, mangas, abacaxis e cajus, além de São Sebastião, padroeiro de sua cidade natal (Bagé – RS) e também do Rio. A exposição enfatiza ainda a grande importância deste artista brasileiro que também faz parte com mais de 130 obras da coleção de Gilberto Chateaubriand, um dos maiores colecionadores de arte do país.

Serviço
Glauco Rodrigues – “Crônicas anacrônicas – e sempre atuais – do Brasil”
Danielian Galeria – Rua Major Rubens Vaz, nº 414 – Gávea
Seg a sex, das 10h às 19h
Até 23 de novembro

Foto Jayme Acioli

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