Um espetáculo sensível baseado em uma trama macabra, é o que o espectador vai encontrar em “Mansa”.
As duas atrizes, com muito fôlego e precisão, percorrem um labirinto de fragmentos que contam distorcida e aleatoriamente a história de um assassinato de um pastor evangélico pelas próprias filhas reprimidas, em casa encarceradas e abusadas.
São feitas descrições acuradas e o público é levado aos requintes de como tudo aquilo se deu. Lia e Raquel, as filhas do pastor, são retratadas em sua vida carregando o fardo, e as lembranças e causos paralelos contribuem para enriquecer a cena. O terreno da casa assolada pelo crime é um caso à parte, de sorte que ali policiais, curiosos, futuros compradores tecem suas observações e adicionam a informação que vai aguçando os sentidos da plateia.
A partitura executada pelas artistas corresponde a uma narrativa ora calma ora abrupta, com a corporificação de mais personagens além das filhas e uma demonstração de certa versatilidade. As escolhas da trilha sonora são bastante adequadas.
O cenário e a própria concepção cênica da peça é muito simples e propõe um grande exercício às duas atrizes. Ora taciturno, ora inquietante, o conflito apresentado presta-se mais a ilustrar uma natureza sórdida do homem e de matéria-base para um ziguezague espacial cominado com uma poesia desconstruída que as intérpretes se põem a operar.
A direção atenta de Diogo Liberano leva as atrizes Amanda Mirásci e Nina Frosi a um estágio de técnica apurada e semi-sacralidade na pronúncia do texto. O tema da peça, sua trama em si, não suscita grande entusiasmo, mas o cuidado e seriedade com os quais é montado o projeto inspira comentários de bom teatro.