O combo Iara Ira pode ser visto por vários ângulos. O que cabe melhor a este registro é um espetáculo musical, protagonizado por três das melhores cantoras da nova geração, que derruba as paredes da suposta divisão entre a música e o teatro e mescla tudo sob o amálgama da arte no palco. “Iara Ira” marca o início da comemoração de uma década da gravadora Joia Moderna, no projeto “Joia ao Vivo”, que tem patrocínio da Oi, através do Governo do Estado do Rio de Janeiro, Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa e Lei Estadual de Incentivo à Cultura.

As três cantoras e performers são a gaúcha Duda Brack, a potiguar Juliana Linhares e a carioca Julia Vargas. Todas na faixa entre 25 e 30 anos e com a liberdade artística para reverenciar o passado e homenagear o futuro em desconstruções musicais e, neste caso, reconstruções sonoras marcadas por fortes doses cênicas e dramáticas.

Desde os primeiros segundos em que o álbum começa a rodar, você sente como se estivesse assistindo a música, tamanha é a amplitude vocal das três para derramar emoções em timbres.

O trabalho segue uma narrativa teatral na sequência das canções, bolado musicalmente por Thiago Amud e sob a direção artística de Caio Riscado. O primeiro tem currículo com crivo de Caetano a Francis Hime, e o segundo, vasta carreira teatral. Leo “Shogum” Moreira é responsável pela gravação.

“O Philippe Baptiste teve a ideia do projeto e o Caio (Riscado) trouxe o conceito. Nós já éramos amigas, tocávamos nos shows uma da outra. E nos unimos misturando a ancestralidade do canto feminino (a sereia Iara) inserido na fúria (Ira) contemporânea”, diz Duda Brack.

De cara, “Mãe da Manhã”, de Gilberto Gil, dá o tom do espetáculo. As três flutuam a melodia em quase coral sobre uma cama climática percussiva, de baixo, bateria, guitarra e efeitos.

Os músicos que as acompanham se dividem entre os instrumentos. Elisio Freitas fica com guitarra, viola caipira, baixo, drum machine e sintetizador. Ivo Senra também comanda sintetizadores, além do baixo sintetizado. Lourenço Vasconcelos completa o trio synth e segura as baquetas da bateria.

A amplitude sonora que os seis alcançam permite que viajem da MPB ao rock distorcido, do Coco à levada de viola, da música ao teatro, sem escalas.

“Teus cabelos, mana/São os arvoredos/Toca fogo neles, mana/De manhã bem cedo” entoam na cantiga “Mana” sob variação sonora que deságua em rock pesado.

“Iara Ira é roda de fogueira, é ritual de acender as corpas pra fortalecer as lutas femininas”, diz Juliana Linhares. “Simboliza a potência das mulheres, somando forças para continuar resistindo e lutando”, completa Julia Vargas.

Um tema delicado como “Carta Branca”, de Baden Powell, é conduzido suavemente em jazz até a dramaticidade tomar conta e ganhar tonelada de peso.

Som de cravo conduz pelo braço “Coquetel Molotov”, de Ian Ramil, até um baixo à new wave levá-la por uma viagem no tempo. Mesmo crescente apresenta “Minervina”, de domínio público, que flerta com MPB meets chorus de guitarra.

Um som de theremin assombra “Cortei o Dedo”, de Carlos Careqa e Raul Cruz, sob camadas percussivas e “Da maior Importância”, de Caetano Veloso, mescla novamente guitarra e sinth à MPB.

Um samba de roda assume a frente do trabalho em “Gira das Ervas”, de Luli e Lucina, e a canção que marca o nome do grupo, criação de Frederico Demarca e Renato Frazão, mescla timbres e nuances vocais em um trip hop moderno.

Temos viola caipira na levada “Ausência”, de Ednardo, uma poesia cantada em “Madrigal” (Paulo Monarco, Bruno Batista e Dandara) e uma espécie de psicodelia nordestina crescente em “Negra Mata”, de Ivo Vargas e Arthur Fochi.

No giro final da apresentação a dinâmica é acentuada em dramaticidade, que vai do Coco à explosão distorcida de jazz roqueiro. “Côco do Coco” (Guinga e Aldir Blanc), “Contenda” (Thiago Amud e Guinga) e “Casa Forte” abrem todos os espectros possíveis nas variações harmônicas e melódicas, tanto instrumentais quanto vocais.

Um belo primeiro baixar de cortinas do projeto, que envolve nos próximos meses nomes como Marina Iris, Zé Manoel, Letrux e Mãeana. Fruto da concepção do diretor artístico Marcio Debellian somado ao head da gravadora, o DJ Zé Pedro.

 

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