Caraí fica a 32km da rodovia Rio/Bahia, na entrada de Padre Paraíso, um pequeno município do Vale do Jequitinhonha. Lá, encontram-se as comunidades de Córrego do Santo Antonio e Ribeirão do Capivara, onde vivem grandes mestres e suas famílias, produtores de uma rica e tradicional cerâmica. Os trabalhos com barro no Vale começaram há quase um século com a confecção de peças utilitárias, panelas, moringas, brinquedos para as crianças, feitas por mulheres então chamadas de “paneleiras”. A cerâmica figurativa – que hoje faz sucesso em todo o mundo – , despontou na década de 1970 com as criações de grandes e originais artistas, como Noemisa Batista dos Santos (1947) e Ulisses Pereira Chaves (1924-2006), ambos filhos e netos de oleiras. Uma tradição que vem sendo mantida geração após geração.

No dia 17 de outubro, quinta-feira, às 17h, será inaugurada na Sala do Artista Popular (SAP) do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (CNFCP-Iphan), a mostra Arte do barro, arte na vida – Caraí, MG, que vai até 24 de novembro mostrando justamente peças inéditas de autoria de familiares desses dois importantes ceramistas. Da família de Ulisses estarão expostas, entre outras obras, as máscaras e cabeças produzidas por seus filhos, Margarida Pereira Silva e José Maria Alves da Silva, e as cenas modeladas por sua neta Rosana Pereira Silva, em que sobressaem o diálogo com o avô, o encanto dos contos populares e dos filmes de animação. Já da família de Noemisa, estarão as bonecas de sua irmã Geralda Batista dos Santos, desde as que guardam na forma a moringa àquelas que retratam o cotidiano. Assim, a SAP abre suas portas para o legado da transmissão de saberes desses artistas.

“Tudo, ou quase tudo, lá é feito de barro, as casas, os utensílios, os moveis… Até mesmo os pigmentos que colorem as peças de cerâmica são retirados do próprio barro”, conta a antropóloga Guacira Waldeck, responsável pela pesquisa de campo que deu origem à exposição. Ela percorreu a região, sempre marcada pela alternância entre períodos de seca e de chuva e pela pequena produção agrícola, que agora passou também a se destacar pelo trabalho dos ceramistas. “É um trabalho lindo, com muitas atividades compartilhadas por todos os membros da família. Ali toda a cadeia de produ& amp; ccedil;ão é coletiva”, explica.

Foi nos anos 50 que lideranças começaram a se mobilizar para a criação de um plano de desenvolvimento da região com políticas públicas de incentivo aos saberes tradicionais locais, como a tecelagem, a arte do couro e arte da cerâmica que foi a que mais despontou no mercado. Com o tempo, as peças que eram produzidas para o uso cotidiano e eram vendidas em feiras locais foram dando espaço a uma produção mais singular e artística voltada para o mercado urbano e que também despertou o interesse de colecionadores de arte dentro e fora do Brasil. Criações de Noemisa e Ulisses, por exemplo, já integraram importantes exposições como Brésil Arts Populaires (Paris, 1987) e a Mostra do Redescobrimento (São Paulo, 2000) e fazem parte de acervos de vários museus. O paisagista Roberto Burle Marx (1909 – 1994) construiu em seu sítio de Barra de Guaratiba, no Rio de Janeiro, um pavilhão quase totalmente destinado à exposição das obras de Ulisses. Não é a toa que ele está entre os dez melhores artesãos da América latina e Caribe é conhecido no mundo da Arte como o Ceramista do Apocalipse. “O Brasil tem uma diversidade de saberes extraordinária que chamamos de arte popular. E a incrível arte do barro do Vale do Jequitinhonha é um dos destaques dessa produção”, pontua Guacira.

Serviço:
Exposição Arte do barro, arte na vida – Caraí, MG
Local: Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular Serviço – Sala do Artista Popular Endereço: Rua do Catete, 179.
Período: 17 de outubro a 24 de novembro de 2019
Dias e horários: Terça-feira a sexta-feira, das 11h às 18h
Sábados, domingos e feriados, das 15 às 18h
Entrada Franca

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