Um filme com uma grande história misteriosa, um grande elenco e, acima de tudo isso, uma grande polêmica. Tudo porque O Irlandês é o mais novo filme dirigido por Martin Scorsese – mas que, pela primeira vez em sua longa carreira, foi filmado para compor diretamente o catálogo do streaming da Netflix. Entretanto, como Scorsese não joga para perder, o longa (que tem potencial de receber algumas indicações a prêmios) teve sua estreia planejada para uma curta temporada nos cinemas – um pré-requisito para que sua candidatura seja considerada. Não bastasse isso, o diretor ainda resolveu criticar a fórmula dos filmes da Marvel… Ou seja, antes de estrear, o filme já veio envolto a muito burburinho.

Baseado em fatos reais extraídos do livro homônimo de Charles Brandt, o longa conta a história do submundo da máfia italiana do eixo Nova York-Chicago através do ponto de vista de Frank Sheeran (Robert De Niro, deixando de lado as comédias românticas), um irlandês motorista de caminhão que acaba caindo nas graças dos poderosos da máfia italiana. Através de seus relatos, vamos conhecendo todos os personagens, as relações entre eles, como os interesses vão mudando com o tempo e, por conta disso, a configuração da pequena cooperativa também – especialmente quando conhecemos o dono da cooperativa dos caminhoneiros, Jimmy Hoffa (o maravilhoso Al Pacino).

Com 3h40 de duração, o filme poderia ter sido muito bem uma minissérie de quatro episódios, porém, Scorsese é mais dado a fazer filmes longos com um só argumento, do que uma minissérie em que é preciso pensar no corte e na passagem de tempo ao fim de cada episódio. Para o espectador comum, ficar cerca de 220 minutos sentado na sala de cinema vendo um mesmo filme pode acabar se tornando cansativo – não tanto pela história do longa, mas por permanecer na mesma cadeira, na mesma posição, sem comer ou ir no banheiro. Esse é o preço a se pagar para ver O Irlandês em tela grande.

Não é preciso ser um exímio cinéfilo para reconhecer muito da assinatura de Scorsese, elementos já previamente apresentados em trabalhos anteriores, como Cães de Aluguel e Taxi Driver, pequenas sutilezas na forma de De Niro dirigir o carro ou de levantar as sobrancelhas quando uma ordem é dada, ou como Russell Buffalino (Joe Pesci, incrível) repete frases com a boca cheia – um gesto memorável de De Niro em Taxi Driver. Para os fãs da sétima arte, estes pequenos easter eggs no universo scorsesiano são um deleite.

É bem verdade que um conhecimento prévio da história ajuda bastante entender não só o que está acontecendo, mas para qual direção a trama irá se desenrolar. São muitos personagens, muitos apelidos, muitos detalhes, todo mundo é duas caras e a passagem de tempo é grande (cerca de trinta anos de intervalo). Somado a isso as mais de três horas de filme, é necessário prestar muita atenção.

O roteiro é bem estudado, retrabalhado, preocupado em criar ganchos plausíveis e risos absurdos. Todas as falas são calculadas, nada é dito gratuitamente. O elenco, selecionado a dedo, é o que mais brilha, mostrando a sintonia palpável que esses grandes parças têm – mesmo anos depois. Entretanto, não passa despercebido que este é um filme masculino, em cujo universo masculino apenas os homens têm vez (as falas das atrizes dá para contar nos dedos).

Ainda assim, O Irlandês é um puta filmaço, desses que tem mesmo que passar em sala de cinema, com fortes chances de ganhar diversos prêmios na temporada 2020.

Foto: divulgação Netflix

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