Clarice Falcão fala sobre “O After do Fim do Mundo”.

Foto: Pedro Pinho

A Cantora e compositora Clarice Falcão lançou, em março deste ano, o disco “Eu Me Lembro”, que faz uma releitura de músicas anteriores de sua carreira, com uma roupagem eletrônica. Com novo estilo, Clarice faz uma homenagem a quem ela foi em cada uma das composições, as Clarices que existiram nos distintos momentos de sua vida.

A escolha das músicas do novo álbum foi a partir dos discos “Monomania” com “O Que Eu Bebi” e “Eu Me Lembro” que contou com parceria da cantora Letrux, e Problema Meu com “Irônico” e “Eu Escolhi Você”, além de uma composição inédita, “Pra Ter O Que Fazer”.

Em plena pandemia, já durante a quarentena, Clarice decidiu gravar o clipe da música “O After do Fim do Mundo”, com parceira da Linn da Quebrada, já com o isolamento social e a impossibilidade de realizar um clipe nos modelos tradicionais, foi idealizado um projeto visual futurista onde as duas cantoras são avatares que existem apenas numa realidade virtual.

A composição ”O After do Fim do Mundo”, foi gravada toda a distância, como foi a sensação de construir uma obra, que é algo feito em conjunto, de forma tão diferente por conta do isolamento social?
Clarice – Por um lado foi muito frustrante porque quando a gente combinou de gravar junto não tinha começado, por outro lado, eu acho que fez muito sentido com a música, a música tava falando justamente disso, foi uma coincidência muito louca e a coisa de gravar, da gente ter que gravar a distância porque o mundo está numa pandemia, não tem nada mais after do fim do mundo do que isso assim. Então, por outro lado, só confirmou que a gente precisava gravar essa música e lançar porque ela tava fazendo todo sentido.

Como foi trabalhar nesse single com a Linn da Quebrada, vocês construíram juntas a estética do clipe?
Clarice – Foi maravilhoso, a gente já se encontrou em alguns afters por aí, mas a gente nunca tinha colaborado. Eu mandei a música para ela e ela devolveu aquele verso que eu acho levou a música para um outro patamar, acho aquele verso muito lindo, e é muito bom, acho que nunca tinha colaborado dessa forma assim de mandar uma música e ganhar um outro pedaço de música e foi muito bom, é muito bom misturar as visou de mundo e as formas de compor. A estética do clipe foi precisa, como a gente não podia gravar um clipe juntas, até cogitei ser cada uma na sua casa se gravando mas achei que essa estética já tem bastante, e achei que essa coisa de criar um avatar para cada uma e dessa forma a gente pode tá no mesmo clipe porque a gente tá digitalmente tem muito a ver com o que a gente tá vivendo.

Nesse álbum, você trabalhou também com Letrux, como foi a escolha dessas parcerias?
Clarice – A Letícia foi uma parceria que já rolou, ela cantou no Circo Voador comigo, mas na época ela ainda não Letrux, ela era Letícia ainda. E eu sempre fui muito, muito, muito fã do trabalho dela como Letuce, como Letícia, como Letrux. Eu acho ela maravilhosa e essa participação me marcou, quando ela cantou, “eu me lembro” , no Circo Voador, na turnê do meu segundo disco, ficou marcado na minha cabeça, dai agora na hora de regravar as músicas para o EP eu pensei nela direto.

O novo “EP, Eu_Me_Lembro” em homenagem às Clarices do passado tenta resgatar qual sentimento em você?
Clarice – Acho que é uma homenagem as Clarices do passado e também uma homenagem a Clarice de agora, acho que é muito um exercício de pegar composições que eu fiz à tanto tempo e perguntar como a Clarice de hoje faria essas composições porque tem muito de mim que continua a mesma coisa, tem muito de mim que mudou. Acho que eu mudei bastante nesses dez anos, e acho que é isso esse sentimento, eu olho para as minhas composições antigas e tenho um carinho enorme por elas, mas também tenho um carinho enorme pelo que eu caminhei, pelo que eu mudei, pelo que eu evolui acho que como artista e acho que é botar as Clarices antigas e a atual para conversar mesmo.

Quais conselhos a Clarice de agora daria então para essas Clarices do passado?
Clarice – Eu acho que não daria nenhum conselho não, sabe. Acho que elas faziam um monte de coisa errada, mas tudo fez parte do crescimento, faz parte do crescimento. Você vê que a Clarice do “Monomania”, ela é extremamente apaixonada, é um discurso sobre o primeiro amor, sobre como você fica idiota quando você fica apaixonada. Acho que eu tinha noção de que estava sendo idiota, mas eu me joguei mesmo, eu estava de fato apaixonada e por mais que fosse irônico e tal, até poderia dar o conselho de não se jogue tanto, mas hoje em dia acho que não seria a Clarice de hoje, então acho que deixaria tudo ser como foi.

Das músicas que você resgatou, qual delas é mais importante para você e por qual motivo?
Clarice – Acho que de certa forma, das versões do “Eu Me Lembro”, talvez hoje em dia a mais importante seja “Para ter o que fazer”, é a única que nunca foi gravada, nunca foi lançada e eu achei muito bom, pegar uma música, tirar da gaveta, lançar ela como novidade e sentir que ela fez sentido para as pessoas, que as pessoas curtiram e mais doido ainda, fez sentido para o mundo de hoje em dia. Essa é uma música sobre tédio, enfim essa é uma coisa que a gente tá passando muito nessa quarentena, de não achar o seu lugar.

Seu pensamento sobre o mundo já ter acabado e estarmos vivendo algo posterior a isso é algo surrealista ou distópico que parece fazer muito sentido em meio a tudo que estamos vivendo (em tempos que parece que nada faz sentido, o chamado “novo normal” que de normal não tem nada). Como você acha que será a forma que teremos que viver daqui para frente e qual a melhor forma de enfrentar isso?
Clarice – Eu sou muito dessas que acredita que a gente mudou mesmo assim, acho que o mundo já acabou, já está acabando faz tempo, essa música foi composta antes da pandemia, acho que já com a ascensão desses líderes de extrema direita, para mim ver que está surgindo grupos neonazistas, eu acho isso muito apocalíptico, agora então, mais ainda. Tem essa teoria, eu não sei exatamente onde eu li, tem também um texto do Jonathan Franzen super bonito sobre isso, sobre o mundo ter acabado e como é que a gente lida com o fato que o mundo acabou. De qualquer forma eu acho que no mínimo o mundo como a gente conhece acabou mesmo, acho que a gente nunca vai voltar para como era antes.

O tom futurista do clipe de “O After do Fim do Mundo” completa esse pensamento distópico, quais foram suas inspirações artísticas para compor essa obra?
Clarice – O Pablo Monaquezi, que dirigiu e eu, acho que a gente pensou em um mundo que não existe mais no plano físico, ele só existe no plano digital, como se fossemos todos avatares e o mundo físico já acabou, foi uma ideia muito para a gente poder fazer esse clipe a distancia e acho que acabou ficando muito maneiro.

Foto: Chico Castro

Em “Só +6” a personagem diz “sou livre, sou livre, sou livre até ser refém”, do que a personagem se sente refém, tem a ver com a situação que estamos vivendo onde vimos que não somos livres de verdade, ou faz parte de outro contexto, se sim qual?
Clarice – “Só +6”,  eu compus bem antes, compus dois anos atrás e a música e sobre essa coisa de festa, eu gosto muito de fazer festa, de emendar uma festa na outra, ir para o after do after, que inclusive é um assunto que voltou no “after do fim do mundo”, as eu acho que é dessa falsa liberdade que a gente fala assim, ai vou para uma festa, eu sou muito livre, mas na verdade você está sendo refém de tomar mais um drink, de ir para o after, é uma falsa liberdade, muitas vezes, e as vezes a gente fica escrava de ficar num lugar, que a gente tá mais curtindo com medo de ir para casa e se sentir sozinha e acho que nessa época, uns dois anos atrás acho que eu fazia muito isso, de estender a noitada para não voltar para casa e me sentir solitária, que é um sentimento muito triste, isso é uma prisão né.

 

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