João Bosco lança “Abricó-de-Macaco”.

Novo disco do cantor, compositor e violonista está disponível nos aplicativos de música . Com 16 faixas, sendo duas inéditas, o DVD, dirigido por Fernando Young, será lançado no dia 19 de maio, no canal do YouTube de MPB da Som Livre.

O álbum é uma co-produção da gravadora com a MPB Discos e o Canal Brasil e sai em formato físico em 22 de maio.

 

Por Lucas Nobile:

Assim como craques de outros saberes e fazeres artísticos (Glauber Rocha, Gianfrancesco Guarnieri, Plínio Marcos, Chico Anysio e Graciliano Ramos), João sempre tratou das miudezas e profundezas – incluindo os desvios – da alma brasileira. Com a diferença, em comparação com os aqui citados, que ele segue vivo e atuante.

Neste novo trabalho – digno de figurar na prateleira das grandes obras, que, logo de cara instigam e já dizem a que vêm -, a provocação inteligente sobressai, de arrancada, no título: “Abricó-de-Macaco”. A alegoria, proposta em parceria por João e seu filho Francisco Bosco, é tão complexa quanto bela.

É obra de espírito amplo, evocando a inesgotável fortuna de conhecimentos gestada nas bordas de uma nação continental. O que atravessa as 16 faixas aqui bordadas é o ouro cultural emanado das periferias do Norte (presente em “Senhoras do Amazonas”, parceria de João com Belchior) ou do Nordeste (pontuada em “Forró em Limoeiro”, do genial Jackson do Pandeiro, em espécie de suíte nordestina, com o perfume de Sivuca, João do Vale, Marinês e Gonzaguinha), do Brasil real, das periferias, dos subúrbios e dos morros cariocas. Aragem tão funda que IBGE nenhum é capaz de apurar ou traduzir.

Portanto, não é ocasional o encontro entre Os Tincoãs, de Mateus Aleluia e Dadinho, com Dorival Caymmi e Silas de Oliveira, na bem sacada junção de “Cordeiro de Nanã” e “Nação” (João Bosco, Aldir Blanc e Paulo Emílio), consagrada na década de 1980 pela iluminada voz de Clara Nunes.

Da mesma forma, no mesmo DVD cabem um Brasil que tem como um de seus maiores capitais a diversidade e o sincretismo religiosos (“Terreiro de Jesus”) e um Brasil em que muito malandro – seja de colarinho branco, seja eleito pelo voto popular – se julga mais malandro do que a própria malandragem (“Profissionalismo É Isso Aí”).

A maioria das músicas deste DVD, são regravações. O que, no caso de João, jamais pode ser definido como um “cover”. Dono de identidade artística tão ímpar e marcante, mesmo quando apresenta obras que não são de sua autoria, João Bosco é um intérprete-compositor.

 “Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira”. A tabelinha entre pai e filho faz lembrar, e não é de hoje, de um imaginário encontro entre Zizinho (João) e Rivaldo (Francisco): dois craques de tempos diferentes, simultaneamente cerebrais e poéticos, incapazes de propor uma jogada burocrática ou pedante. Jogadores irrequietos e extraclasse, que, parafraseando o poeta Manoel, não gostam nem do som nem da palavra acostumada.

Foto destaque: Marcos Hermes

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