Cia Carne Agonizante realiza Mostra de Repertório.

A Cia Carne Agonizante realizará de 1º a 9 de julho uma Mostra de Repertório de espetáculos através de suas redes sociais. Ao todo serão nove trabalhos que compõem o repertório do grupo e são considerados icônicos, exatamente porque traz o gene da companhia que neste completa 23 anos de fundação.

Para o produtor da Cia, Júnior Cecon, “disponibilizar estes conteúdos gratuitamente, sobretudo em momentos de isolamento social causado pela pandemia da Covid-19, é também uma forma que a Cia encontrou de continuar contribuindo com a sociedade no acesso a bens culturais, ainda mais porque todos os espetáculos que serão exibidos foram produzidos com recursos oriundos de programas governamentais”.

PROGRAMAÇÃO:
01/07 – “A Metamorfose”
Apresentação realizada em maio de 2005 no Centro Cultural São Paulo – 55 minutos

Foto: Junior Cecon

“A Metamorfose” (1915), de Franz Kafka, conta a história de Gregor Samsa, um caixeiro viajante que, ao despertar de sonhos aterrorizantes, se percebe transformado em um escaravelho, tornando-se assim o “objeto” de desgraça e vergonha de sua família. Um estranho rejeitado pelos seus pares em sua própria casa, sendo lançado a sentimentos terríveis de inadequação, culpa e isolamento. A coreografia busca a tensão asfixiante e opressiva da obra de Kafka, que direciona seus personagens centrais a um único destino possível sem qualquer possibilidade de retorno – o do total aniquilamento. ‘A Metamorfose’ da Carne Agonizante, criado em 2002 nada mais é do que um corpo obscuro sem identidade, inserido num status quo sociopolítico aterrorizante, com um final previsível. A vida encaixotada no seu devido lugar, o da insignificância absoluta.

02/07 – “O Processo”
Apresentação realizada em julho 2007 na Galeria Olido – 50 minutos

Inspirada na obra homônima de Franz Kafka, a coreografia teve sua estreia em novembro de 2003. A coreografia se vale dos elementos angustiantes da obra literária para reforçar uma ambientação insólita e sinistra, tão essenciais ao universo kafkiano. Na manhã do seu 30º aniversário, Joseph K. é despertado e, em vez do café da manhã, recebe uma ordem de prisão sem qualquer explicação lógica. Começa aí uma espécie de pesadelo burocrático que o levará à ruina psicológica, moral e física. E é a culpa acusatória que Joseph K. carrega em suas costas que se faz presente neste espetáculo.

03/07 – “Carta ao Pai”
Apresentação realizada em julho de 2006 na Galeria Olido – 60 minutos

Estreado em julho de 2006, o espetáculo retrata, através da dança, o embate solitário de Franz Kafka com seu pai Hermann Kafka. A presença tirânica e autoritária da figura paterna contribuiu de maneira decisiva para que Franz se tornasse uma pessoa extremamente insegura emocionalmente. Kafka transformou o pai em uma espécie de sombra monstruosa que o perseguiu até o último dia de sua vida. Em uma tentativa desesperada de expurgar de si todos os sentimentos de frustração e indignação em relação a Hermann, Kafka escreve uma carta extremamente irônica e agressiva, mas não tem coragem suficiente de entregá-la ao destinatário. Muito provavelmente, por ironia do destino, seu pai morreu sem ter conhecimento do conteúdo deste documento, que acabou se tornando mais uma obra de forte apelo emocional e reflexivo do escritor de Praga. A obra coreográfica procurou se apropriar das sensações físicas contidas na angústia, no tormento, no ressentimento e na carência afetiva, tão transbordante nesta obra literária escrita em 1919.

04/07 – “Um Artista da Fome”
Apresentação realizada em agosto de 2008 na Galeria Olido – 48 minutos

Inspirado na obra homônima de Franz Kafka, o espetáculo trata da relação conflituosa entre o artista e o espectador. Criado em 2008, reflete sobre a busca incessante pela fama/poder/status/dinheiro na sociedade contemporânea e a consequente entrega aos prazeres pelas novidades de consumo, que geram um corpo coisificado e embrutecido, com um prazer mórbido pela informação banal e descartável, insensível à reflexão, aos valores éticos, sociais e políticos. Nesta encenação, o grupo assume mais uma vez o compromisso de criar, através da dança, um retrato realista de mundo atual, sem retoques, visceral e densa.

05/07 – “O Canto Preso”
Apresentação realizada em março de 2008 na Galeria Olido – 60 minutos

Criado em 2008, “O Canto Preso” é uma adaptação coreográfica do texto teatral “Bent”, de Martin Sherman, e tem como temas centrais o preconceito e o nazismo. Conta a história de um homem perseguido e preso por ser homossexual. Para amenizar seus horrores no campo de concentração, ele se fez passar por judeu, pois sabia que os homens que detinham o triângulo rosa em suas vestes estavam sendo massacrados pelos guardas da SS e humilhados pelos presos. Nesse lugar de sofrimento e extermínio em massa, se apaixona por outro homem de quem se torna amigo e amante. Com intensa fisicalidade, o espetáculo cria uma atmosfera densa, alternando momentos de fragilidade e agressividade. Os dois personagens masculinos foram inseridos num contexto atual, com o objetivo de ampliar a discussão sobre territórios e fronteiras, liberdade e opressão. Em cena, duas figuras femininas, não existentes na trama original, são figuras metafóricas dos personagens masculinos.

06/07 – “Estado Independente”
Apresentação realizada em julho de 2009 no Teatro do Sesi em São Paulo – 54 minutos

A pesquisa e a criação do espetáculo, estreado em 2009, se apoiaram na revolução política e poética proposta por Ernesto “Che” Guevara nos anos 50 e 60, na figura lendária do guerrilheiro “cidadão do mundo” como ele próprio se definia, e na sua permanência no imaginário coletivo como um personagem de espírito incorruptível, indomável, e disposto a lutar contra a injustiça social. Nesta montagem, o palco invadido por uma escuridão sobrecarregada, é sobreposto por elemento de uma guerrilha, mas ainda assim, poética. Os intérpretes repercutem as questões sociais que podem permitir ao individuo, em grupo, buscar uma saída que lhes consinta sonhar com um mundo socialmente justo, honesto e ético.

07/07 – “Produto Perecível Laico”
Apresentação realizada em junho de 2011 no Centro Cultural São Paulo – 48 minutos

O espetáculo criado em 2011 abriga a poética do catarinense Cruz e Souza, considerado o mestre do simbolismo brasileiro. Por ser negro o poeta não obteve reconhecimento em vida, sofrendo duras humilhações e perseguições raciais. Faleceu no ano de 1898, aos 36 anos de idade, vítima da tuberculose, da pobreza e, principalmente, do racismo e da incompreensão.

Sua obra só foi reconhecida muitos anos após a sua morte. Sua poesia fala da finitude, da dureza de conviver com a angústia da perda, da solidão e da noite. Em cena não há personagens, mas sentimentos, signos e dores contidos nos corpos que transitam no ambiente cênico, buscando evocar, a sensação do grito sufocado, doloroso e amargurado. Dentro dessa proposta, produz resultados estéticos em que a certeza é substituída pela recusa de soluções lineares, transformando o gesto e o movimento não em narrativas, mas em signos estruturalmente prisioneiros da ambiguidade. Uma trágica e alucinada dança dos que morrem…

08/07 – “Colônia Penal”
Apresentação realizada em agosto de 2013 no Kasulo Espaço de Cultura e Arte – 75 minutos

Inspirado na obra homônima de Franz Kafka (1883 -1924) e na ditadura militar brasileira (1964-1985), o espetáculo criado em 2013 propõe que o insólito e o absurdo possam ser percebidos em várias situações: numa detalhada descrição de métodos de tortura dos regimes antidemocráticos abrigando e encobertando assassinos; na cruel e irônica omissão de um observador estrangeiro; na estranha relação entre o poder oficial e o condenado.
A obra amplia a pesquisa em direção as torturas cometidas pela ditadura militar no Brasil nas décadas de 60, 70 e 80 resultando com a morte e desaparecimento de centenas de brasileiros contrários ao regime da época. Constrói uma estrutura de gestos, ações e movimentos resultando uma dramaturgia corporal teatralizada, para gerar um jogo de tensão no espectador. Colônia Penal caracteriza-se como um atentado contra a dignidade humana. É o anti-herói kafkiano lançado, torturado e executado nos porões da ditadura militar brasileira.

09/07 – “Não te abandono mais, morro contigo”
Apresentação realizada em outubro de 2015 no Kasulo Espaço de Cultura e Arte – 49 minutos

O espetáculo apresenta dois amantes cansados e desiludidos pelo fim de uma paixão que se diluiu por conta da inevitável ação do tempo. O que prevaleceu foi o amor, como sentido de ausência de toda esperança. Ambos já estão mortos desde o momento em que se olham e se tocam, pois suas almas já partiram cabisbaixas para o desconhecido há tempos. Como um grito abafado no ar, se entrelaçam desesperadamente em uma cama, numa espécie de dança da morte, completamente destituídos de tudo, exceto de uma inevitável necessidade de sexo para celebrar o desenlace. ‘Não te abandono mais, morro contigo’ é simplesmente a insuportável constatação de que nada restou para eles, e o desejo de se libertarem deste nó górdio os fizeram cúmplices, e os tornaram terrivelmente unidos. Um brinde amargo ao fim!

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here