Produções nacionais para ver na Netflix.

Por João Victor Ferreira

Partindo mais uma vez para a locadora vermelha – a Netflix – , observamos sempre uma escassez de títulos nacionais que nos deem orgulho das produções cinematográficas em terras tupiniquins.

Ainda que o catálogo da Netflix tenha sido restrito, desde sua popularização, de uns tempos pra cá isso vem mudando, de modo que as pressões exercidas pelos realizadores brasileiros, atuantes no serviço de streaming, contribuíram na divulgação de novos filmes, além da popularização de antigos.

Então, para quem tem preguiça de ler legenda ou no mínimo quer uma injeção de brasilidade, vão aí cinco indicações de longa metragens nacionais presentes na Netflix. Lembrando que essa lista é temporal e os títulos escolhidos estavam presentes na prateleira da locadora no mês de setembro de 2020.

 Cinema, Aspirinas e Urubus (2005) – Marcelo Gomes

No sertão nordestino de 1942, Johann (Peter Ketnath) é um alemão fugido da Segunda Guerra Mundial que tenta uma nova vida vendendo aspirinas em seu caminhão por todo o Brasil. Na estrada, ele encontra Ranulpho (João Miguel), um homem simples do sertão que vê em Johann a chance de conseguir algo na vida, trabalhando como seu assistente e com o sonho de sair do local onde cresceu. Conforme o filme passa um grande laço de amizade se forma entre os dois.

O pernambucano Marcelo Gomes, depois de participar como roteirista do premiado Madame Satã (2002), vem com seu projeto de longa em 2005, munido de um desafio e tanto: dirigir um filme de época no sertão.

Firmando a parceria, Karim Ainouz muda de lugar na produção do filme e também escreve Cinema, Aspirinas e Urubus. Um dos aspectos que mais chama atenção é a delicadeza em que o roteiro trabalha o aspecto áspero da realidade sertaneja. Há aqui uma propriedade, por parte da direção, na verdade em que o diretor representa imageticamente a região brasileira, algo que ele ainda iria repetir no documentário Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar (2019).

O design de produção é talvez a primeira coisa que pode saltar aos olhos, de modo que o figurino, somado à mise-en-scène contribuem para nos transportar para aquele período histórico. Muito mais do que isso, a trilha sonora e a fotografia são a cereja no bolo, não deixando dúvida sobre a representação histórica escolhida, além de atribuir charme e vida ao filme.

Parte da trilha alternando entre notícias de jornal sobre a Segunda Guerra e músicas de 1940 contribuem demais para o escapismo que o filme se utiliza. O aspecto de película coroa, por fim, essa representação histórica, não deixando dúvidas que os personagens não vivem hoje em dia (nem na época que o filme foi lançado): a imagem aqui também conta uma história.

Para além disso, a fotografia que puxa para tons mais quentes, com reflexos do sol no para brisas do caminhão e a composição estourada da iluminação indicam o calor vindo da seca do local onde estão.

O roteiro se faz valer tanto pela tarefa de tornar crível o relacionamento entre esses dois homens desconhecidos, mas ganha seu real brilho em inverter arquétipos previsíveis dentro do imaginário comum.

Ranulpho pragueja a todo momento o local onde vive e acha o Brasil o pior lugar do mundo. Em contraste Johann não vê os problemas que todos veriam, enxergando na sua nova terra um verdadeiro paraíso, livre de bombardeios e sangue inocente.
Obs.: Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar (2019) também está no serviço de streaming.

O Som ao Redor (2012) – Kléber Mendonça Filho

Foto: divulgação

Uma rua de classe média do Recife é o pano de fundo para contar diferentes histórias de moradores pernambucanos que vivem, cada um a sua forma, uma vida pacata. Tudo muda quando uma empresa de segurança privada é contratada para trazer paz aos arredores. A presença dos guardas poderia ser um alívio, mas acaba se tornando sinônimo de tensão, para alguns dos residentes.

Antes de Bacurau (2019) e Aquarius (2016), Kléber Mendonça Filho já havia mostrado as referências filmográficas que adquiriu ao longo de sua carreira como crítico de cinema, lançando seu primeiro longa de ficção em 2012 (lembrando que em 2008, já havia lançado o documentário Crítico).

Em O Som ao Redor há uma culminação de muito do que o diretor já havia experimentado e testado em curtas-metragens passados. Há aqui um senso de tensão e mal-estar urbano, muito característico nas discussões das relações humanas que são criadas com a popularização da tecnologia: algo já debatido por Kléber em Eletrodoméstica.
A mescla do drama humano com o terror social já havia também sido explorado em Vinil Verde. Da mesma forma, a hipocrisia de uma classe média alta em seus contrastes repercussivos de uma estética “casa grande e senzala”, também já foi proposto pelo diretor em Recife Frio.

A trama é dispersa (com vários núcleos e personagens), mas nunca chega à esquizofrenia. Algo que ele ainda viria a aprimorar em Bacurau, mas aqui é feito com uma maestria ainda maior. Os acontecimentos em cima dos personagens pouco importam, sendo eles engrenagens vivas dentro do debate temático que apresentado: o personagem principal é essa rua específica, em um bairro nobre de Recife.

O mal-estar urbano que inclusive leva a terrores muito mais intrínsecos do que parecem, lembram o cinema de John Carpenter dos anos 80. O mal que vem de dentro da trama hipócrita da sociedade, ao invés de uma ameaça externa que só tem como objetivo destruir à organização pré-estabelecida.

O design de som é marcado (som alto, em contraste com a carência de trilha sonora), além de extremamente bem alinhado com a trama, nos fazendo sentir nesse estresse velado de uma sociedade voyeurística, mas que em nenhum momento tem a vontade de romper a inércia e lidar com os reais problemas de violência e traição a que estão submetidos.
Obs.: Aquarius (2016) também está no serviço de streaming.

Elena (2012) – Petra Costa

Em uma jornada de autoconhecimento pelos dramas de uma família de classe média alta de Belo Horizonte, Petra Costa monta seu documentário em busca da imagem de sua irmã mais velha, Elena, longe há 20 anos em Nova York, depois de seguir um sonho de se tornar atriz de cinema.

Antes de sua indicação ao Oscar com o documentário Democracia em Vertigem (2019), Petra já havia estourado com Elena, em diversos festivais, a partir da sua estética única na linguagem documental. Dentro da estética de imagens de arquivo, Petra mostra aqui a mão que tem para esse gênero, ao conseguir combinar tragédia e beleza, tristeza e alegria, horror e euforia, tudo isso no mesmo filme, sem nunca apelar para o sensacionalismo.

O excesso de material em vídeo reunido por Petra serve para que ela conte a história de alguém que fez (e faz) parte da sua própria história: ou até melhor, conta sua história em reflexo com Elena. A narração em primeira pessoa ressalta ainda mais o caráter pessoal da sua abordagem, algo que surge com extrema precisão e elegância nesse filme. O que vemos aqui é um relato pessoal e que não teria relevância alguma, não fosse o primor cinematográfico que permeia cada verso dessa história, em linguagem documental.

A edição do filme é afiada e consciente do que precisa ou não mostrar, em contraste com o plausível excesso de material que a diretora deveria ter (tanto de vídeos antigos, quanto os filmados recentemente). Não há espaço para a exploração desmedida de emoções aqui – estratégia clássica para alcançar a simpatia do público. Petra relata a tragédia que aconteceu em sua vida, nunca mostrando uma lágrima se quer.

Existem alguns momentos que a edição mescla cenas cotidianas com a narração de laudos médicos ao fundo, de modo a ressignificar cada uma das imagens vistas. Ressignificar inclusive é um dos maiores temas do filme e isso passa para a forma do que é visto.
Mesmo costurado pela narração de Petra, há ainda alguns momentos de completo silêncio – ou até de imagens sem som algum. Isso interfere na interpretação que temos dessas imagens, mudando o significado que atribuímos a elas, em um primeiro momento. São nos silêncios que Petra constrói a sua poesia (nas telas pretas que o filme apresenta).

A trilha sonora é cheia de personalidade e leveza, ao mesmo tempo. Os momentos de performance, onde o filme sai da esfera documental e vai para o lirismo puro e simples se casam tão bem com a temática do filme que ficam cravadas na cabeça como pura poesia– a dança na rua e as mulheres no rio são planos sublimes.

Obs.: Democracia em Vertigem (2019) também está no serviço de streaming.

Foto: divulgação

Mãe Só Há Uma (2016) – Anna Muylaert

Pierre (Naomi Nero) é um jovem rebelde que vê sua vida ser completamente virada de cabeça para baixo depois que sua mãe é presa pela polícia, revelando que sua família, no fim das contas, não é biológica. Ele começa a procurar pistas sobre seu passado, partindo de parentes verdadeiros que passam a lhe chamar de Felipe. Essa nova realidade inicia uma jornada interna onde Pierre precisa achar sua identidade.

Anna Muylaert, um ano depois de lançar o premiado e comentadíssimo Que Horas Ela Volta (2015), traz aqui um trabalho um tanto mais visceral. Traços característicos de sua filmografia ainda se fazem presentes, como a explorar as diferenças sociais entre classes a relação velada de cordialidade falsa entre oprimido e opressor.

Junto a isso, a mão da diretora se faz mais ainda presente na sua incrível habilidade de mesclar o horror da realidade em que os personagens estão submetidos, de uma forma doce e bem humorada, inclusive contribuindo para o incômodo do público que é obrigado a absorver uma representação dicotômica de um mesmo acontecimento: o que para alguns pode ser símbolo de alegria, para outros é uma tremenda tristeza. Diferente por exemplo de Durval Discos (2002), Anna aqui propõe uma obra não tão fantasiosa, mas nem tampouco complexa, terrível e dramática.

O maior valor do filme é de longe as atuações, principalmente no protagonismo de Naomi Nero. Há aqui uma confluência muito bem realizada, e já antes demonstrada na carreira de Anna, de uma boa direção de atores, com um casting bem acertado.

Com poucas falas e muitos momentos de silêncio e ações simples, Naomi consegue passar toda a angústia e confusão de um adolescente, quase adulto, que vê sua existência ser quase que completamente posta a prova quando ele é obrigado a se adaptar a uma nova realidade que não escolheu.

A poesia aqui vem a partir dos silêncios do protagonista, tanto em momentos de solitude, quanto na omissão de respostas a diálogos de outros coadjuvantes. Como em uma boa música, interpretada a partir dos intervalos de silêncio dentro dela mesma. Aqui o personagem se eleva quando não fala, quando age ou simplesmente se mantém inerte.

Tudo até a culminação de cenas marcantes e carregadas de emoção. A catarse funciona muito bem depois de diversos minutos de uma crescente construção de tensão familiar. Destaque também para a euforia desmedida, em contraponto com o dever de educação familiar de Daniela Nefussi e Matheus Nachtergale.

Foto: Divulgação

Como Nossos Pais (2017) – Laís Bodanzky

Rosa (Maria Ribeiro) é uma mulher casada que almeja a plenitude em todos os setores de sua vida pacata: ser uma excelente profissional, mãe, esposa e também amante. Sendo filha de uma família rica de intelectuais e mãe de duas pré-adolescentes, ela se vê lidando com as pressões de uma realidade que a obriga a todo momento ser moderna, determinada e onipresente. Tudo muda quando ela descobre uma mentira desonesta de sua mãe.

Depois de mais de 20 anos de carreira, Laís chega, em 2017, com o título Como Nossos Pais propondo se apropriar de um discurso moderno e feminista, com a carga emotiva e precisão cirúrgica na direção.

Há aqui um controle muito particular no blocking das cenas, o que mostra a experiência e habilidade que a diretora sabe que tem – ainda mais depois de tantos filmes. O controle da mise-en-scène é algo que contribui muito para a representação dos personagens em cena, de modo que o espaço preenchido pela câmera também ajuda a contar a história de cada um deles.

Rosa passa por um momento de transição em sua vida. Ela alterna entre momentos de tensão e pura catarse de sentimentos, em uma realidade que a obriga constantemente a ser um modelo de mulher, de esposa, de mãe, de filha e etc. As tarefas de casa e os objetos cênicos próprios desse ambiente (panelas, fogão, vassouras, esfregões) entram em completo desalinho, de modo que a bagunça supera a organização e, de uma maneira bem barroca, isso reflete no espírito de Rosa.

O mesmo pode também ser dito pela escolha de enquadramentos que contrastam entre a liberdade dos planos abertos das locações externas, em contraste com o confinamento e claustrofobia do ambiente do lar.

Algo que deve também ser ressaltado é a qualidade das interpretações, com destaque máximo ao contraponto que existe entre Maria Ribeiro e Clarisse Abujamra (personagem também se chama Clarice, com a diferença de um “c”): filha e mãe. O caráter assertivo, destemido, seguro e irônico de Clarice contrastam perfeitamente com as atitudes defensivas, preocupadas, inseguras e histéricas de Rosa.

Esse embate geracional permeia o filme inteiro com temas muito próprios pra relação humana de mãe e filha: combinar a criação de filhos com o prazer narcísico próprio. Existe aqui uma analogia quase óbvia com a peça Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen, mesmo que o roteiro não se baseie em uma adaptação da mesma.

Na verdade, há uma atualização dos temas contemporâneos à peça de Ibsen, em uma realidade moderna que Bodanzky propõe, com outros desafios, mas com o mesmo espirituosismo. Rosa se vê a todo momento como Nora, que está a um passo de deixar tudo que tem para seguir sua própria vida, longe de sua família que a pressiona, somado a um sufocante machismo institucional.

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