Por João Victor Ferreira

Em O Chão Sob Meus Pés, Lola (Valerie Pachner) é uma conselheira de finanças que tenta levar sua vida pessoal com a mesma eficiência que seu eu profissional. O passado de Lola, no entanto, é mantido em segredo, principalmente no que se trata a sua irmã Conny (Pia Hierzegger). Quando Conny, vítima de uma doença mental, volta à vida de Lola, tudo muda na vida regrada da jovem empreendedora.

            O roteiro trabalha de uma forma muito simples. Vemos a vida de Lola estruturada e consolidada, no início, de modo que a trama é o consequente desmonte da sua realidade. Primeiramente, o contraste da frieza calculosa que faz Lola domar suas decisões objetivas no emprego, entram em conflito direto com a incapacidade de lidar com os desejos passionais de sua vida pessoal. Esse já é um dos contrastes que incrementa o drama de sua vida e a riqueza da personagem – muito bem atuada, por sinal.

            Junto a isso, outras pressões externas – além da sua irmã que exige de sua atenção – afetam a vida da protagonista, além de criar paralelos com o mundo real, como o machismo institucionalizado em grandes empresas, a questão da homossexualidade escondida de Lola, a pressão por líder com um superior e a chance de promoção. Mesmo sádico, em uma primeira vista, o filme não deixa o roteiro parecer incômodo, a partir da elegância da direção na hora de retratar elementos mais controversos – como o sexo lésbico e o abuso no trabalho.

            A direção é da austríaca Marie Kreutzer que garante esse ar delicado e elegante em uma história que grada tanto, em um crescente de enlouquecimento, sem nunca explodir de fato. O protagonismo de Lola é muito interessante, ainda mais por caminhar constantemente sob a linha tênue do caos completo. Há um temor comum de que Lola ceda à loucura – e acompanhe a tendência de sua família –, algo que o roteiro até se utiliza em sequências de ilusão.

          Aliás, o final, ainda assim, responde tudo de forma bem didática e previsível. A falta do elemento caótico final ou a coragem maior de romper com a linha criada pelo roteiro, não estraga o filme em nenhum momento. A direção é muito inteligente no que mostra, deixando os horrores para a mente do espectador e nunca imortalizados pela imagem do filme. O Chão Sob meus Pés é um filme em que o conflito reside dentro dos limites da elegância, sugerindo muito mais do que mostrando.

 

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here