Documentário é ferramenta de transformação social.

A partir dos bastidores de um show realizado no Theatro Municipal de São Paulo, o rapper ativista Emicida relembra, transmite e celebra o poderoso legado da história e cultura negra no Brasil, ao longo dos últimos cem anos em AmarElo: É Tudo para Ontem, em cartaz na Netflix.

A intenção transformadora do documentário é bem clara. Em entrevistas anteriores, o cantor Emicida já demonstrava a intenção de transformar o álbum homônimo – e ganhador do Grammy Latino de 2019, na categoria Melhor Disco de Rock ou Música Alternativa em Língua Portuguesa – em um produto cinematográfico. Foi utilizando a estética e linguagem documental que ele melhor conseguiria alçar o objetivo de esclarecer parte da história do Brasil, por partes inviabilizada ou ignorada por anos.

Ao misturar a sensibilidade artística com análise histórica, o documentário pretende claramente nos contar uma lição sobre o passado, para que munidos dessa informação possamos mudar o presente e futuro. Aliás,  AmarElo: É Tudo para Ontem tem ainda um viés ideológico muito claro: o viés humano. Além disso, o rapper costura suas pretensões com o produto audiovisual, ser uma certa divulgação do seu antigo álbum, ao mesmo tempo que ser relevante na historiografia da negritude brasileira e ser uma análise sociológica refinada numa espécie de autobiografia do artista, e ainda no meio disso tudo, servir como making off do show que havia ocorrido um ano atrás.

A narrativa do documentário

Para construir a narrativa de AmarElo: É Tudo para Ontem, o roteiro é pensado e organizado em luz de alguns pontos importantes para se entender a história da negritude no Brasil. 1) A Escravidão e, consequentemente, o processo abolicionista, com o fim em 13 de maio de 1888; 2) O Trabalho em São Paulo que se usou da mão de obra negra para fundar sua hegemonia nos ciclos do ouro e do café; 3) Imigração e posterior Embranquecimento Populacional, a partir de teorias eugenistas que pretendiam apagar a história e participação dos negros recém libertos; 4) O processo de Gentrificação de cidades do Brasil, em específico São Paulo, a partir da descaracterização de bairros tradicionais, ocupados por pessoas de maior poder aquisitivo e marginalizando a população pobre para bairros. Junto a isso também há 5) A Cultura Hip-Hop, surgindo nos anos 1970, nos EUA para o mundo e se firmando na periferia de São Paulo, a partir do break, grafite e do rap; 6) O crescimento do que ele chama de Voz Preta, com a ajuda da indústria fonográfica que impulsiona, a partir dos anos 1990, os artistas de rap para as elites intelectuais do Brasil; 7) A Emancipação Digital, dando importância à internet e plataformas de streaming, responsáveis por emancipar financeiramente artistas independentes.

É claro que, grande parte da aceitação ou não do público à narrativa do documentário, vem da aceitação (ou não) de Emicida como figura relevante e potente para encabeçar e organizar essa variedade de registros e reflexões. O rapper é o personagem principal do filme e também o responsável por contar a história (mesmo a direção caindo no colo de Fred Ouro Preto): se você entrar em uma de “onda narcísica”, provavelmente vai se desconectar logo no início. Narrativamente, o filme se utiliza de várias elipses, colocando Emicida no meio de todas elas, como se o rapper promovesse essa ponte entre passado e o que vem aí no futuro. Essas elipses são importantes para a consolidação da imagem, a partir da ferramenta da associação que é utilizada pelo narrador.

AmarElo: É Tudo para Ontem é, certamente, uma construção de mito, muito mais do que um documentário sobre o processo criativo de um artista, a partir de um show existente. A iconografia religiosa, usada no show, demonstra essa intenção de Emicida refletir em cima desse mito brasileiro que, ao seu ver, vai sendo diluído pouco a pouco, ao longo dos anos. Surpreendentemente, é um excelente documentário e ferramenta de transformação social.

 

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