Autores percorreram cidades por onde o cantor passou, antes e depois do seu sumiço.

BelchiorAntônio Carlos Belchior é autor de um dos gestos mais intrigantes da história recente da Música Popular Brasileira. Artista respeitado, dono de um repertório do qual qualquer músico poderia se orgulhar, carreira de sucesso, padrão de vida confortável, cercado de amigos, cercado de mulheres.

Com 60 anos recém-completos, deixou tudo isso para trás, rumo a uma jornada incerta e anônima pelo sul do país, que terminaria com sua morte dez anos depois. Não explicou a ninguém o motivo do seu desaparecimento, não pediu dinheiro emprestado aos amigos, só deu um telefonema a um dos filhos durante este período. Em companhia de uma nova produtora e amante, Edna Assunção de Araujo, de pseudônimo Edna Prometheu, percorreu dezenas de cidades, viu de longe seu patrimônio ir embora, foi caçado pela justiça e pela imprensa, dormiu em locais abandonados, dependeu da caridade de desconhecidos, foi expulso de casas por pessoas que o abrigavam, e não retrocedeu.

Por que Belchior agiu assim? Esta pergunta foi feita por muitos fãs, familiares, colegas e amigos. Um mistério para a maioria das pessoas que jamais compreenderam as motivações do artista. Esta mesma questão moveu particularmente dois jornalistas e doutorandos em Literatura no exato momento em que viviam uma transformação, em que se especializavam no mundo acadêmico com o intuito de se firmarem certamente como pesquisadores, também fãs do cantor e interessados em mergulhar em suas origens. Assim nasceu este livro, que designamos road book por ter sido produzido enquanto percorríamos as paralelas anteriormente percorridas pelo nosso objeto de estudo.

Aliás, “Viver é melhor que sonhar – Os últimos caminhos de Belchior” entra em pré-venda nesta segunda-feira (18/01) e deve ser lançado entre fevereiro e março.

Os autores percorreram cidades por onde o cantor passou, antes e depois do seu sumiço. “Fomos ao Rio Grande do Sul, seguimos para o Uruguai, depois para São Paulo e finalmente chegamos no Ceará. Andamos de trás para frente: fomos do lugar onde ele morreu até o lugar onde ele nasceu”.

“Entrevistamos pessoas que tiveram contato com ele, conhecemos locais onde ele se hospedou, dormimos em camas onde ele dormiu, reviramos suas malas deixadas para trás. Consultamos processos e documentos que levavam seu nome e anotações pessoais, perturbamos sua família com perguntas indiscretas, choramos com alguns depoimentos, entrevistamos suas amantes, seus advogados, seus amigos de infância”, contam Chris Fuscaldo e Marcelo Bortoloti.

Assim, eles chegaram a conclusão, ao longo da investigação, no entanto, que não conseguiram distinguir os limites entre a vida íntima do homem e a vida pública do artista. Estava tudo embaralhado num mesmo cesto que era necessário examinar para compreender suas motivações mais profundas. Ao lado das músicas, dos livros, dos depoimentos, absorvemos também as fofocas, as picuinhas, as maledicências. Nossas facetas jornalísticas e pesquisadoras estavam separadas por uma linha bastante tênue.

Nas páginas do road book “Viver é melhor que sonhar – Os últimos caminhos de Belchior” que sai pela Sonora Editora, o leitor vai acompanhar o nosso processo de descoberta. Um trajeto cheio de percalços, pequenas decepções, grandes alegrias, com muitas versões de uma mesma história narradas pelas diversas testemunhas que acompanharam a tragédia daquele grande artista.

Nos dez últimos anos antes da sua morte, Belchior viveu de maneira insólita e extraordinária, conhecendo pessoas diversas, lugares interessantes e relações inusitadas, com fãs perplexos que abrigaram um astro da música em suas casas sem saber muito bem por que ele estava ali.

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