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Quitéria Chagas fala sobre sua volta ao Império Serrano

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Foto: Eliane Diotti

É como diz o ditado: “Quem já foi rainha, jamais perde a majestade”. Em 2020, Quitéria Chagas anunciou sua aposentadoria do Império Serrano. Ao consumar sua decisão, ela não poderia imaginar que o mundo fosse passar por uma pandemia e que sua ausência fosse durar tão pouco. Menos de um ano após o anúncio, ela retorna à escola da qual é cria para ser homenageada como “Eterna Rainha” e para acertar sua volta.

Aos 40 anos de idade, a ex-atriz que mora atualmente em Milão, na Itália, agora é psicóloga, doula, além de passista. Agora, ela volta à escola numa posição ainda maior do que quando saiu.

Em entrevista ao Rota Cult, ela conta sobre sua vida durante a pandemia da Covid-19 num dos países que mais sofreu os impactos da doença, sua volta ao Império Serrano, a atuação na Federação Nacional das Escolas de Samba e sua vida profissional fora da avenida.

Poucos meses após ter anunciado sua aposentadoria, você retornou ao Império Serrano para confirmar sua continuidade como sua representante. O que motivou seu retorno?
Quitéria Chagas – Foi uma questão logística. Apesar da rainha de bateria ser uma profissional da dança, no espetáculo carnaval, nós enquanto rainhas não somos profissionalizadas. Então, todos os custos e gastos são meus. Nem sempre foi assim, pois sempre houve um apelo da comunidade para que eu fosse a representante da escola e me tornei uma personalidade do carnaval. Mas morar em outro país dificultou bastante, mas fico feliz por ter voltado como rainha da escola. Não é a primeira vez que eu exerço esse cargo. Em 2004, fui rainha pela primeira vez, mas agora o Império Serrano resgatou esse cargo. Então, no próximo carnaval, vou representar a escola na avenida abrindo o desfile antes da comissão de frente.

O que significa para você ser a primeira mulher representante da Fenasamba?
Quitéria Chagas – É muito importante para mim ter sido a primeira mulher a ser escolhida como embaixadora do Samba, na Federação Nacional das Escolas de Samba. Um reconhecimento que veio dos baluartes, da presidência e da diretoria. Isso significa que o patriarcado reconhece o valor e o papel das mulheres do samba, Afinal, as matriarcas, foram e são o berço do samba. Então, um órgão reconhecer isso é, sem dúvidas, um passo importante e tem me dado a oportunidade de brigar por políticas públicas, na tentativa de fortalecer o universo do samba e trazer mais respeito ao carnaval que ainda é muito desvalorizado pela sociedade, visto que, o racismo estrutural permite que o carnaval e o samba ainda seja associado à festa de preto, à algo ruim, pecaminoso, mesmo sendo uma festa altamente lucrativa.

O carnaval é um espetáculo que movimenta muito dinheiro, mas seus profissionais ainda atuam na informalidade. A Fenasamba surgiu em 2017, dessa necessidade de unir forças com outros segmentos da cultura para defender os interesses desse patrimônio que é o carnaval.

 Você foi uma das fundadoras da Associação das Doulas do Rio de Janeiro, mas hoje mora na Itália, quais são as diferenças existentes na prática da profissão?
Quitéria Chagas – Sim, ao lado da presidente da Federação das Doulas, Morgana Eneile, mas junto com outras doulas, nós lutamos para existir a Lei das Doulas para que existisse políticas de inclusão das doulas nos serviços de saúde e a reduzir o risco de violência obstétrica. Afinal, prestamos serviço à mulher. O apoio na hora do parto, métodos não farmacológicos para diminuição da dor, empoderar a mulher neste momento, pois o corpo delas já nasceu preparado para esse momento. Na Itália, a diferença é que eu trabalho mais com gestantes brasileiras e elas chegam até mim com muito trauma, traumas esses que foram criados aqui no Brasil, ideias muito arcaicas que sempre culpabilizam a mulher. Mas aqui na Itália, 90% dos partos são naturais. A preferência aqui é sempre pelo parto natural. Como aqui é assim, meu trabalho é prepará-la para este momento, trabalhar para que o trauma não a impeça na hora de ter o bebê.

Como a psicologia entrou na sua vida?
Quitéria Chagas – A psicologia entrou na minha vida em 2008, isso se eu estiver falando do estudo acadêmico, mas desde a infância sempre gostei de estudar as pessoas, observá-las e entender a complexidade humana, porém, a dança falou mais alto. Dediquei muito tempo aos estudos relacionados à dança, ao corpo, mas sempre soube que em algum momento faria psicologia. E quando cheguei no curso, fiquei maravilhada, querendo ou não, é um processo de autoconhecimento. Eu consegui me desenvolver e poder ajudar as pessoas como sempre gostei, porém, não mais baseada no senso comum, mas sim, em bases científicas. Sou mais voltada à psicologia perinatal, uma área que se dedica a entender os traumas criados ainda na gestação do bebê.

 Que situações presenciou ao exercer seu ofício fora do Brasil?
Quitéria Chagas – Bem, aqui eu não exerço a profissão de psicóloga ainda. Para validar meu diploma preciso fazer mais dois anos de formação aqui, porque a graduação aqui é muito mais voltada à especialização, é mais densa em questão de conteúdo e isso dificulta um pouco as coisas. Estou esperando a pandemia acabar para poder voltar a minha rotina, fazer esses dois anos e poder atuar na profissão.

 Com a COVID-19 muitas pessoas passaram a sentir de forma mais perceptível sintomas de ansiedade e depressão. Como profissional quais intervenções podem contribuir para um estado de melhora de quem passou a sentir esses sintomas?
Quitéria Chagas – Acontece que a nossa sociedade não sabe lidar com o acaso, com o imprevisto. Somos uma sociedade baseada no controle. Com a chegada da Covid-19, entramos num grande reality de confinamento e isso levou ao aumento dos casos de depressão e ansiedade. Ao mesmo tempo que desencadeou altas doses de aflição, surgiu também aqueles que negam a gravidade da pandemia. Ou seja, dois sintomas extremos e, em ambas as situações, são sensações ocasionadas pela necessidade de escapar da depressão e da ansiedade. Como psicóloga minha orientação é que as pessoas procurem por ajuda. O profissional vai ajudar a lidar melhor com essas sensações. A boa notícia é que o Conselho Federal de Psicologia liberou o atendimento online.

Quais lições o período de pandemia te trouxe e como foi passar por esse momento no país que num primeiro momento foi dos mais afetados pela pandemia?
Quitéria Chagas – Igual a todo mundo encaro a realidade imposta pelo novo coronavírus. A Covid-19 ensina a todos nós que não podemos nada, não temos controle de nada. Aqui na Europa, não tenho mais a liberdade de ir e vir. Em algum momento, é praticamente impossível não ficar aflita. Como pessoa, estou numa fase de aceitação para entender que ainda vai demorar um tempo para tudo voltar ao normal, mas a maior lição que eu tive foi a conscientização social. A reabertura foi um erro, priorizaram a economia ao invés das vidas das pessoas. Sinto que estamos vivendo um genocídio global, mas no Brasil, a coisa anda muito pior. Falta ao Brasil, aprender com os erros, espelhar mais nos acertos. Na minha vida particular, eu tenho sido bastante radical, mas sabemos que isso não se aplica a todo mundo, achar que é um exagero científico é uma negação e mostra que a humanidade ainda não entendeu o propósito de estarmos passando por isso coletivamente. Precisamos cuidar uns dos outros, nos importar com o outro e ficarmos em casa.

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