Marc Ferrez
Legenda e crédito das imagens: Marc Ferrez em seu escritório. Rua São José, Centro Rio de Janeiro.c. 1905. Foto: Marc Ferrez. Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo IMS

Um dos principais fotógrafos brasileiros do século XIX, Marc Ferrez (1843-1923) manteve o hábito de registrar anotações, tarefas e procedimentos técnicos. Com objetivo de promover o acesso a esse rico material, o Instituto Moreira Salles (IMS) e o Arquivo Nacional (AN) criaram o projeto de digitalização e difusão on-line dos cadernos do fotógrafo, que estão sob sua guarda.

A iniciativa será lançada no dia 19 de outubro (terça), às 18h, em uma conversa on-line transmitida ao vivo pelos YouTube e Facebook do IMS. O evento contará com a presença dos pesquisadores Maria Inez Turazzi e Julio Lucchesi Moraes e das editoras Maria do Carmo Rainho (AN) e Ileana Pradilla Ceron (IMS).

Até maio de 2022, em lançamentos bimensais, serão disponibilizados oito cadernos manuscritos e um catálogo impresso de autoria de Ferrez. O material poderá ser acessado pelo público gratuitamente no site.

No dia 19 de outubro, serão lançados os dois primeiros cadernos: Catálogo das vistas, E. de Ferro, Marinha, do acervo do IMS, e a Agenda Pathé Frères, do Arquivo Nacional. Em Catálogo das vistas, E. de Ferro, Marinha, Ferrez relaciona as fotografias que integram seus principais trabalhos comissionados, como a documentação das ferrovias no Sudeste e Sul do Brasil, das embarcações da Marinha nacional e estrangeira e dos edifícios recém-construídos na avenida Central, no Rio de Janeiro.

A agenda, por sua vez, registra atividades, contatos e filmes vistos ou procurados por Ferrez no ano de 1918, em Paris. O documento é um testemunho da estreita parceria comercial entre a família Ferrez e a Pathé Frères, a maior companhia cinematográfica do mundo até a década de 20.

Os cadernos foram produzidos durante os últimos anos de vida do fotógrafo, quando ele se mudou para Paris, em 1915, e apresentam conteúdos bastante variados, incluindo anotações tanto da esfera dos negócios quanto da familiar. Aliás, encontram-se, por exemplo, inventários de negativos, listas de tarefas a cumprir e despesas, endereços e datas de aniversário de entes queridos, além de receitas culinárias.

Segundo Ileana Pradilla Ceron, esse é o momento em que “um Ferrez maduro, tendo já construído uma bem-sucedida carreira fotográfica e comercial, e consciente da relevância de seu legado, sente a necessidade de inventariar sua obra e compilar conhecimentos sobre técnicas e processos fotográficos”. Nesse período, aos 72 anos, Ferrez passa a se dedicar aos seus novos negócios familiares, no ramo da distribuição e exibição de filmes, faceta menos conhecida de sua trajetória, mas com importante contribuição para o ramo do cinema.

Maria do Carmo Rainho, por sua vez, observa que os cadernos trazem o desafio de “lidar com a ilusão biográfica, a crença na possibilidade de dominar a singularidade da vida de Marc Ferrez a partir desses fragmentos”. Para a pesquisadora, “tentar reconstruir os itinerários do fotógrafo, identificando as redes de relações, as sociabilidades, as parcerias comerciais, os modos como ele atuava na superfície social constitui-se, portanto, um denso exercício”.

Transitando entre público e privado, a documentação possibilita novas frentes e campos de pesquisa, como pontua Ceron, “Embora nos cadernos predominem os enfoques profissionais, eles também descortinam muitos outros assuntos, como os referentes ao mundo dos afetos e às relações econômicas e de classe social. Esse entrelaçamento entre as múltiplas camadas de informação identificadas nos cadernos, como os aspectos técnicos, comerciais, sociais e familiares, por exemplo, poderá tanto agregar novas tonalidades à já conhecida figura de Marc Ferrez quanto sugerir novas trilhas para os estudos sobre a fotografia e o ofício do fotógrafo.”

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