Livro relembra o passado operário do bairro, com olhar social e político.

Jardim BotânicoMais de cem anos depois, após dois anos de pandemia, ainda vemos pessoas se recusando a completar a o esquema vacinal. Isso nos faz lembrar a desinformação de parte da população em 1904 com a famosa “Revolta da Vacina”. Poucos sabem que um dos episódios teve como palco o bairro do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. A população, insatisfeita com a campanha de imunização obrigatória contra a varíola, foi às ruas em protesto, ocasionando tumulto e destruição dos bondes que circulavam no bairro. A rua Jardim Botânico foi uma das mais afetadas, ficando parcialmente destruída, segundo publicação da época no Gazeta de Notícias. Essas e outras curiosidades estão no livro “Histórias do Jardim Botânico: Um Recanto Proletário na Zona Sul Carioca”.

A obra é resultado de vasta pesquisa da historiadora Luciene Carris que relembra o passado operário do bairro, passando por vieses urbanos, sociais e políticos. “Histórias do Jardim Botânico: Um Recanto Proletário na Zona Sul Carioca” resgata o período compreendido entre 1884, quando a Fábrica de Tecidos Carioca foi inaugurada na Rua Pacheco Leão, e 1962, quando a Rede Globo se instalou no endereço. Dessa maneira, o bairro é retratado como um subúrbio em plena Zona Sul, já que era distante do Centro e com moradores majoritariamente de baixo poder aquisitivo, realidade bastante diferente dos dias atuais.

“No Centro, as vilas operárias foram para o chão. Temos cortiços, estalagens, mas vilas operárias, apenas uma ou outra. Aqui, temos uma lindíssima, tombada, que está virando galerias de arte e restaurantes. As pessoas vão comer no Jojô e não sabem desse passado. O tombamento, entretanto, provocou gentrificação. As pessoas estão se mudando porque ficou caro. Virou bairro de elite”, reconhece, citando que muitos lembram apenas da ideia aristocrática do Jardim Botânico imperial e dos viajantes que frequentavam o parque, mas esquecem que também havia escravos na região.

Além disso, a escritora menciona também os trabalhadores infantis que ganhavam a vida no local: “Apesar de proibido, havia muitos menores de 14 anos”. Nem as histórias mais recentes, como a visita do então candidato à presidência Juscelino Kubitsheck, foram deixadas de lado: “Todo mundo vinha em época de eleição”.

O interesse no passado proletariado surgiu aos poucos e quase que por acaso na vida da autora. Moradora do Jardim Botânico desde os quatro anos, o primeiro contato com uma vila operária surgiu quando, ainda na infância, conheceu uma pessoa que vivia na da Carioca América Fabril. “Entrei e vi o pé direito muito alto, tábuas corridas de madeira boa… Aquilo lhe marcou”. Mais tarde, aos 11 anos, teve a oportunidade de visitar outra: “Fui fazer um trabalho escolar em uma enorme na Rua Abreu Fialho, que é uma antiga vila Sauer da Companhia de Saneamento do Rio de Janeiro. Ali, viviam muitas pessoas e aquilo também ficou na minha cabeça”.

Essas experiências voltaram à tona quando, mais velha, quando se relacionou com um rapaz cuja família tinha ligações com esse passado operário e italiano, pois foi um bairro de muitos imigrantes. “Minha sogra falava muito das vilas operárias e dos trabalhadores. Ela me mostrou fotos, mas, na época, não dei tanta atenção. Apenas durante meu estágio pós-doutoral no departamento de História da PUC-Rio com o professor Antonio Edmilson Martins Rodrigues, especialista na história do Rio de Janeiro, surgiu a oportunidade de estudar a fundo o passado do bairro, desbravando suas memórias, que vieram a dar origem ao livro”, diz.

Para a pesquisa, que durou 5 anos sem apoio financeiro, Luciene Carris utilizou fontes variadas como antigos documentos, registros de jornais da época abordada, testemunhos de moradores antigos e também as fotos que sua sogra guardava, além de fontes literárias.

“Histórias do Jardim Botânico: Um Recanto Proletário na Zona Sul Carioca” foi lançado pela Editora Telha e pode ser adquirido em seu próprio site , no da Livraria da Travessa e da Amazon.

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