Voz Surda
Foto: Ramon Velasco

Dois empregados planejam matar o patrão, este é o ponto de partida do espetáculo teatral “Voz surda”, com montagem da Cia Coletivo sem Órgãos. A dramaturgia autoral de Rodrigo Carvalho, construída durante o processo de ensaio e livremente inspirada na peça “As criadas”, do dramaturgo francês Jean Genet.

No texto de Genet, as duas criadas se revezam no jogo de imitar a patroa, e assim as forças de opressão vão migrando entre elas. A escolha do tema, então, não foi gratuita. As relações entre empregado e empregador, oprimido e opressor, têm tudo a ver com o momento atual do país.

Segundo divulgou o IBGE no dia 31 de março, o Brasil tem 12 milhões de desempregados. Somam-se a eles 4,7 milhões de brasileiros em desalento, ou seja, que desistiram de procurar emprego; 27,3 milhões de pessoas subutilizadas; 6,6 milhões de subocupados; além de 12,3 milhões de trabalhadores sem carteira assinada e 38,3 milhões de trabalhadores na informalidade. Além do mais, a reforma trabalhista aprovada pelo governo prejudicou aquele que vende sua força de trabalho, sua mão de obra.

Muitas reflexões surgiram a partir da pesquisa sobre relações de trabalho. Livros como “A elite do atraso”, de Jessé Souza, e “O que é lugar de fala?”, de Djamila Ribeiro, também foram fontes de pesquisa, já que os autores se propuseram a investigar a construção do subalterno ao longo do tempo.

O nome do espetáculo, aliás, é inspirado no artigo “Pode o subalterno falar”, da filósofa indiana Gayatri Spivak. No estudo, Spivak explica que em muitos momentos, nas relações de trabalho, o patrão parece induzir o funcionário a dizer as questões que lhe incomodam naquele ambiente. O opressor cria formas para que essas insatisfações sejam ditas nos momentos convenientes a ele; entretanto, o que é dito não passa dos locais e das pessoas selecionadas pelo patrão. Dessa maneira, a voz do empregado é impedida de perpetuar, ou seja, o chefe cria uma falsa sensação de poder de fala, fazendo da voz de seu empregado uma voz surda.

Em “Voz surda”, dois funcionários que trabalham juntos estão prestes a matar o patrão. Enquanto o chefe não chega, os dois funcionários iniciam um jogo de submissão e poder em que imitam os gestos, a voz e os hábitos do patrão em um perverso ritual de faz de contas.

SERVIÇO
Teatro Ruth de Souza – Centro Cultural Municipal Parque das Ruínas (Endereço: Rua Murtinho Nobre, 169 – Santa Teresa)
Sessões aos sábados e domingos de 7 a 29 de maio
Dias 7, 8, 21, 22, 28 e 29, às 16h; dias 14 e 15, às 18h.
Entrada gratuita
Classificação indicativa: 14 anos
Duração: 50 minutos

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