Montagem provoca a reflexão sobre o amor na sociedade diante das interferências do racismo e da homofobia.

"Amor e outras Revoluções"
Foto: Charles Pereira

“Muitas mulheres negras sentem que em suas vidas existe pouco ou nenhum amor”, a impactante frase de Bell Hooks é parte da inspiração e reflexão que ecoaram em Tati Villela e levaram a multiartista a escrever seu primeiro texto teatral, “Amor e outras Revoluções”.

“Amor e outras Revoluções” proporciona uma experiência que envolve teatro, audiovisual, performance e música para expor camadas de afetos, sociais, econômicas e psíquicas do que é amar uma mulher negra sendo outra mulher negra nos dias de hoje.

Em cena, duas mulheres negras expõem seu amor, inquietações e conflitos em torno de suas subjetividades e trajetórias das suas experiências afetivas. Aliás, a narrativa brinca com o cotidiano, com os sonhos e os desejos mais ocultos destas mulheres. Verdades sobre o amor que raramente são ditas tomam o centro da cena. O drama faz um híbrido com a comédia para que a vida não seja tão amarga. A não-objetificação e a não-hipersexualização desses corpos é levada a sério.

“Este tipo de amor nos ajuda a enxergar a potência do amor por nós mesmas, porque muitas de nós fomos ensinadas a odiar tudo e a qualquer coisa que se parecesse conosco. Amar outra mulher negra é fortalecer seu amor próprio também. A montagem passa por várias nuances que são vividas na realidade de mulheres pretas que vivem uma relação amorosa”, analisa Mariana.

” “Amor e outras Revoluções” aponta e exibe em suas cenas as subjetividades destas mulheres que têm semelhanças, mas não são iguais. Mulheres negras são múltiplas e possuem suas individualidades. O trabalho leva ao público inquietações, mas também leva flores”, adianta Tati.

O tema, certamente, ainda pouco abordado nos palcos brasileiros. “Amor e outras Revoluções” provoca a reflexão do público sobre quais são os obstáculos que esse amor encontra na sociedade diante das interferências do racismo e da homofobia. Além disso, se como essas imbricações reverberam drasticamente na construção da relação entre essas duas mulheres, que ainda por cima, carregam consigo profundos cortes na carne ao longo da história da construção do Brasil.

“Precisamos falar de amor entre pessoas negras, sobretudo na sociedade brasileira, onde a todo momento presenciamos as consequências do racismo estrutural vigente no nosso sistema. Nós, negros, estamos aperfeiçoando a capacidade de nos amar, de amar o nosso espelho, o nosso reflexo. A falta de amor experienciada por mulheres negras historicamente e a oportunidade de pôr o amor entre duas mulheres negras como tema central de um trabalho é a grande motivação”, conta a autora.

Retornando aos palcos após um hiato de alguns anos, Mariana Nunes vive na pele de Luzia, sua personagem, muitas contradições, inquietações e complexidades. “Era isso que eu estava procurando. Quando li o texto, eu disse à Tati que essa peça deveria ser montada, logo, pois ela preenche uma lacuna enorme de imagens, situações e narrativas tão raras e tão caras para as mulheres negras”, conta Mariana.

A atriz completa, “É uma grande oportunidade de realizar um desejo antigo meu. Eu precisava falar de amor e a Tati me apresentou essa oportunidade. O amor entre pessoas pretas, em geral, não é ofertado da mesma forma romântica como ele aparece nas narrativas de personagens brancos. Tenho muita sorte”, comemora.

 O amor e o respeito ao outro é a grande mensagem do espetáculo. Como essas mulheres conseguem se amar por completo? E porque muitas vezes elas não conseguem nem se deixar amar? O amor é real, futurista e ancestral.

SERVIÇO:
Temporada: 16 de Junho a 10 de Julho
Dias da semana: Quinta a domingo
Horário: 20h
Local: Mezanino do Sesc Copacabana ( Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana)

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