Jacques d'AdeskyLivro de de autoria do antropólogo Jacques d’Adesky, intelectual afro-europeu, que há décadas se dedica ao estudo e à produção acadêmica sobre o tema no Brasil, deve ser recebido como uma contribuição significativa ao entendimento de um fenômeno demasiado importante para ser relegado à esfera do senso comum.

Por muito tempo negligenciada ou simplesmente ignorada na discussão acadêmica e no debate público, a questão de raça tem ganhado um espaço significativo nessas duas esferas, nas duas últimas décadas, a partir do debate sobre políticas de ação afirmativa com recorte racial, que mobilizou intelectuais, sobretudo, das ciências sociais e humanas, além de ativistas do movimento social no Brasil.

A isso tem se somado, nos últimos anos, o próprio aumento exponencial, em consequência dessas políticas, da presença de alunos negros nas universidades, bem como a intensidade e a forma como os temas ligados à questão de raça, têm sido apresentados e discutidos quotidianamente nos principais jornais e revistas do país, e na mídia televisiva.

Com uma visão que abrange uma diversidade de momentos da história humana desde a Antiguidade, vemos a construção da ideia de uma humanidade comum, fruto de uma lenta maturação que, até hoje, não se consolidou plenamente, envolvendo desde pensadores da Ásia e da Grécia antigas, passando pela ascensão das religiões monoteístas, até chegar à modernidade, com as Revoluções Americana e Francesa, que produz a primeira Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, em 1789. Nesse processo, destaca-se o papel desempenhado pela ciência, especialmente a paleontologia, a antropologia e a genética, responsáveis não apenas por provar a igualdade biológica entre os seres humanos, mas também sua origem comum no Continente Africano.

De particular interesse para os estudiosos do racismo, são os tópicos que abordam a evolução desse pensamento, desde a intolerância religiosa em países como Grécia, Roma e Egito, passando pelo antijudaísmo cristão e o proto-racismo árabe e ibérico, que acabam fornecendo as justificativas iniciais para a escravização de africanos, tanto nas Américas quanto no Oriente Médio, e que constituem um capítulo muito pouco – e imerecidamente – conhecido da história. Passa-se daí à construção do racismo científico, com o mito ariano e as bases ideológicas do nazismo, com destaque para o antissemitismo, a eugenia e a sociobiologia, pseudociência recentemente proposta (década de 1970), que pretende explicar o comportamento dos seres humanos com base na genética.

Aliás, em seus capítulos finais, d’Adesky aborda mais especificamente o fenômeno do racismo na atualidade e as múltiplas formas e disfarces que ele assume. Isso inclui a visão do “neorracismo”, ou seja, um racismo que não se assume como tal, tendo em vista a demonização dessa ideologia, e especialmente desse termo, no contexto global, e se esconde sob as máscaras do essencialismo, do culturalismo e do relativismo cultural: a ideia de que cada nação tem o direito de expressar e de preservar suas características etnoculturais, incluindo a exclusão dos que lhe sejam “diferentes” – o que, levado às últimas consequências, se traduz no genocídio, tema de todo um capítulo, que se debruça, em especial, sobre os mecanismos que têm sido construídos, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, para preveni-lo, enfrentá-lo e punir seus perpetradores.

Além disso, o livro traz uma visão ampla e atualizada de um fenômeno que continua a assombrar, com suas variadas facetas, muitas sociedades no mundo contemporâneo. A obra ganha ainda maior relevância por ser publicado num momento especialmente sombrio e preocupante para a humanidade que assiste à emergência de ideias e visões de mundo que considerávamos superadas e atiradas ao lixo da história.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here