rhupá
Foto: Mariana Quintão

Em “Rhupá, a fábula da noiva cadáver”, uma noiva é assassinada a caminho do casamento simplesmente por ser judia. O crime, que era comum na Europa Inquisitória nos séculos passados, também foi cometido em cidades brasileiras onde a herança judaica está fortemente marcada, principalmente no nordeste. A história pouco difundida é contada  em montagem da Cia de Artes EM CriAção.

Inspirada numa fábula judaica, a mesma que serviu de mote de A noiva cadáver” (2005), de Tim Burton, a história ganhou versão teatral, com texto de César Valentim. “Rhupá, a fábula da noiva cadáver” joga luz na trajetória dos marranos, judeus obrigados a se converter ao catolicismo, chamados “cristão novos”. Muitos fugiram para o Brasil ou foram enviados de forma forçada no período colonial, ao mesmo tempo em que faz um paralelo com os atuais crimes de violência contra a mulher e os feminicídios.

Seguindo a linha do teatro do absurdo, a cena segue uma proposta em que a realidade mistura-se com a fantasia, o texto permeia a fábula contando uma história real e trágica de forma fantástica, com piadas ao estilo do humor judaico, ácido! O conflito dramático da encenação está entre honrar a liturgia já falada para a noiva cadáver ou seguir as tradições e cumprir o casamento com a noiva prometida. A trilha sonora original de Laura Finocchiaro tem como base as músicas tradicionais judaicas, porém com uma essência nordestina, arranjos fortes e algum peso do rock.

A história acompanha os dramas de uma mulher morta violentamente, vítima de um crime cometido momentos antes de seu casamento. Séculos depois um noivo à caminho de seu casamento faz toda a liturgia e casa-se “por acidente” com a cadáver, e desperta esta noiva cadáver de volta ao “mundo dos vivos”. A ambientação não tem uma localização de tempo ou local, mas faz referências aos costumes e tradições enraizados em nossa cultura, mas que tem herança tipicamente judaica, a montagem expõe – entre reflexões sobre a idealização do amor e eventuais desencontros amorosos – as tensões provocadas pelo empoderamento feminino. O centro de tudo é essa mulher, ela é a fortaleza, como uma árvore centenária.

Aliás, a proposta da Cia de Artes em CriAção vai um pouco mais fundo na essência real dessa fábula para adultos, traçando um paralelo com as heranças e tradições judaicas na cultura brasileira. A ideia cênica de  “Rhupá, a fábula da noiva cadáver” é baseada no teatro do absurdo e no metateatro, que é a linha de pesquisa da Cia. Em cena a atriz representa o passado e está presa, enraizada em suas histórias e as tradições, os outros personagens estão livres e representam o tempo futuro, visualmente representam questões de gênero fortemente debatidas principalmente dentro das religiões e classes mais conservadoras, eles entram e saem de cena, transitam e dialogam com o público, mas não são livres das tradições”, ressalta Alexandra Arakawa, diretora do espetáculo.

Essa noiva é uma mulher de séculos atrás, que ultrapassa o tempo, a vida e a morte. Nos expõe uma violência brutal que ainda existe nos dias de hoje… os crimes contra mulher, o feminicídio e, inevitavelmente, o machismo e o patriarcado, que calam decisões femininas e os direitos de igualdade. Essa noiva cadáver representa a resistência, a força. Apesar da tragédia, ainda tem romantismo, delicadeza e sutileza no sonho de se casar.

Uma das formas de manter viva as histórias e tradições era por meio das fábulas, que contam acontecimentos reais de forma lúdica ou fantasiosa. Esta fábula para adultos faz referência às mulheres jovens que eram atacadas em suas carruagens e assassinadas no caminho de seus casamentos como forma de impedir a proliferação de judeus na Rússia. A adaptação da fábula nasceu do “Pogrom”, uma palavra russa que significa “causar estragos e destruir violentamente”. Historicamente, o termo refere-se aos violentos ataques físicos da população, em geral contra os judeus, tanto no império russo como em outros países. Os casamentos judeus, muitas vezes, eram arranjados entre as famílias como garantia de preservar as tradições, costume comumente praticado também no nordeste do Brasil entre as famílias da mesma “comunidade”, como forma de preservar as tradições.

O preconceito e a perseguição foram marcas dominantes na vida dos imigrantes “cristãos-novos”. Alguns desses marranos, embora publicamente “convertidos”, continuaram secretamente, mesmo com o risco de captura e morte pela Inquisição, a praticar a fé judaica e seus costumes (criptojudaísmo), que, no Brasil, se confundem com a tradição nordestina, já enraizada e oculta por muitas gerações, principalmente nos estados onde as famílias de cristãos-novos se instalaram.

Serviço
“Rhupá, a fábula da noiva cadáver”
Local: Multiuso Sesc Copacabana (R. Domingos Ferreira, 160 – Copacabana)
Temporada: de 21 de julho a 7 de agosto (de quinta a domingo) – 4 sessões extras dias 30/07, 31/07, 06/08 e 07/08 – sábados e domingos, às 16h
Roda de Conversa dia 23 de julho – após apresentação
Horário: 18h
Classificação: 14 anos
Duração: 60 minutos

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