Travessia
Foto: Wallace Souza
Travessia
Foto: Wallace Souza

Um grito de lamento, um barulho ensurdecedor para acordar a sociedade carioca, essa é a premissa que define o projeto “TRAVESSIA” de Wallace Souza. O diretor, dramaturgo e coreógrafo da montagem de dança contemporânea teve seu projeto contemplado pelo edital FOCA da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.

Permeado por poesia e videoarte, o espetáculo apresenta fases da trajetória da população africana desde sua chegada ao Brasil, nos calabouços cobertos de água salgada dos navios negreiros, até a contemporaneidade dos afrodescendentes e a falsa ideia de liberdade que atravessa suas existências.

” “Travessia” parte de uma visão minha ao ver uma pessoa no Cais do Porto esperando chegar um navio. Após alguns anos essa história voltou a mim, mas sob a ótica dos negros que foram sequestrados e trazidos para o Brasil para se tornarem escravos. Quis contar essa história a partir da ótica daqueles que morreram na travessia e que foram desumanizados”,  conta Wallace.

Ele completa, “A travessia ainda se faz nos dias de hoje, onde o povo preto segue sendo alvo e vítima de violência, assassinatos e encarceramentos nos presídios”, protesta Wallace.

Na cena, estão 10 bailarinos negros executando a coreografia que foi construída buscando formas e resgates com a ancestralidade. De acordo com o coreógrafo Wallace é gerada, assim, “uma dança com muitos signos oriundos das entidades que habitam nossos corpos, e realizar isso através da dança contemporânea possibilita sua travessia aos corpos que as interpretam hoje. Por muito tempo gritamos e ninguém nos ouvia de dentro do navio negreiro que carregamos. Os corpos em cena é esse grito, ora silencioso, ora a plenos pulmões”.

Antes das apresentações no teatro, porém, o projeto realiza duas intervenções artísticas abertas ao público em espaços emblemáticos por onde passam partes dessa história. No crepúsculo do dia 16 de julho, às 17h, vivenciando a escuridão que habitava o navio negreiro, o Cais do Valongo recebe o primeiro ato da montagem, onde sob uma estética contemporânea da realidade ancestral os bailarinos vivem a travessia e o desencarne dos mortos numa narrativa dos corpos expostos à desumanização.

Dia 17 de julho, às 17h, é a vez do Largo da Prainha, onde está imponente a estátua de Mercedes Baptista, evidenciar através do segundo ato do espetáculo a ideia das vivências do local onde o negro alforriado morou, trabalhou, cozinhou, conseguiu praticar o candomblé e ainda deu abrigo aos pretos fujões do século XIX.

“É importante este reencontro com a nossa afrodescendência e ancestralidade, assim como poder realizar um projeto falando de nós, com um elenco preto na sua diversidade de corpos e de vivências em dança. Da escuridão para a luz, dos porões ao convés, a dança os – e nos – ilumina como na contemporaneidade que nos abraça, é a dança pulsando, o movimento corporal que liberta e faz o espírito voar. Apesar da caminhada triste e desumana que nos tem sido imposta, o preto segue forte na luta e é isso que a transmutação de ideias que ‘Travessia’ traz em cena”, sintetiza o diretor.

Do espetáculo completo, encenado no CCCRJ, o público pode esperar uma vivência ainda mais arrebatadora. “Um corpo preto é, por si só, um manifesto. E isso é o combustível para tudo que estamos construindo. Apesar das dores trazidas em cena, o espetáculo tem a missão de pontuar onde estamos e quem somos. A gente entende a travessia como um processo de reencontro com quem fomos, somos e quem sempre seremos nessa configuração social destorcida. Somos Rainhas e Reis, e este espetáculo nos dá o palco e o lugar de destaque que sempre merecemos”, encerra Wallace.

SERVIÇO
“TRAVESSIA”
Datas: 22, 23 e 24 de julho
Horário: 19h
Local: Teatro Municipal Angel Vianna / Centro Coreográfico da Cidade do RJ (Rua José Higino, 115 – Tijuca)
Classificação Indicativa: 14 anos
Retirada dos ingressos pela Sympla

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