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Chico Buarque lança DVD, CD duplo e digital de “Que Tal um Samba?”

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Por Claudio Leal – Em 2022,  Chico Buarque propunha um samba para o desconjuro da maré de fascismo e pandemia, ou de pura “demência”, e nos fazia pensar em sua trajetória renovadora nesse gênero musical. Outra vez, Chico condensava a história do samba e a volta por cima da história, prevista por ele entre pavores e prazeres, como se desafiasse o país a evoluir junto com a sua linha melódica.

Chico BuarqueAgora, Chico Buarque lança DVD e o CD duplo e digital de “Que Tal um Samba?” (Ao Vivo), gravados pela Biscoito Fino no Vivo Rio em 3 e 4 de fevereiro de 2023, disponíveis a partir de 24 de novembro, é a resposta de Chico Buarque a essa travessia de “inferno e maravilhas”, recorrendo ao seu cancioneiro de voo universal, uma janela ampla para o mundo.

No roteiro de 31 faixas, o compositor reúne músicas sem rugas do tempo e de significados novos quando espelhadas umas nas outras, acentuando o desenho de sua arte inclinada a inumeráveis jogos de armar. Além disso, todas as canções de longa idade ganham expressão inédita em sua releitura dinâmica. Para mover a história, Chico dispõe de canções de dimensão social e individual, política e romântica, dentro de uma poética transformadora da lírica brasileira. Essa mestria se confirmou ainda outro dia com Tua cantiga, seu lundu com Cristovão Bastos, uma aliança de forma ancestral e linguagem moderna.

O show “Que Tal um Samba?” reflete seu tempo histórico numa poética atemporal e reafirma o impulso de Chico Buarque em redimir os humilhados e as belezas de uma civilização ameaçada. Aliás, algumas canções causam estranheza por remeterem menos ao passado em que foram compostas do que à inquietação com o futuro.

Na turnê, ao dividir o palco com Mônica Salmaso, Chico estreitou o diálogo da cantora paulista com a sua obra, manifestado em álbuns como “Voadeira” (1999) e “Noites de Gala”, “Samba na Rua” (2007), este último totalmente dedicado ao repertório buarqueano, com uma regravação modelar de Beatriz. Um ano antes, no álbum Carioca (2006), Chico convidara Salmaso a participar da faixa Imagina, uma de suas parcerias com Tom Jobim. Desde 1975, o ano do disco e show com Maria Bethânia, o compositor não dividia um projeto com uma intérprete.

A presença de Salmaso estimulou as expressões teatrais de Chico, mais solto nos duos e solos, e ergueu uma ponte entre a alma carioca do compositor e a musicalidade dos paulistas. Em mais de um plano, o show festeja o canto feminino, pois ainda homenageia Gal Costa (1945-2022), evocada em Mil Perdões, e Miúcha (1937-2018), com Maninha, o mergulho ficcional do cantor na infância com a irmã, além de tudo sua cúmplice nos primeiros estudos do violão da bossa nova.

Chico entra em cena no momento em que Salmaso canta Paratodos, uma tirada de chapéu à sua genealogia musical e um evoé aos mestres do futuro. Sem alarde, Paratodos marca outro vínculo, o de Chico com o maestro Luiz Cláudio Ramos, tradutor discreto e profundo de sua cabeça musical, continuando um diálogo iniciado há 50 anos, na gravação de Bárbara para o disco Calabar (1973), que teve arranjos de Edu Lobo. Adiante, Ramos ajudou a conceber as harmonias do show de Chico & Bethânia e fez o arranjo para orquestra de Mulheres de Atenas, em Meus Caros Amigos (1976). No Chico Buarque de 1989, ele elaborou a maioria dos arranjos, mas só a partir de Paratodos (1993) assumiu a direção musical dos discos e shows. Sua colaboração ressalta as afinidades harmônicas com Chico e o entendimento de seu processo criativo.

Esse período de felicidade musical, sob a regência de Luiz Cláudio Ramos (arranjos, guitarra e violão), inclui a banda formada por João Rebouças (piano e cavaquinho), Jorge Helder (baixo, violão e bandolim), Jurim Moreira (bateria), Chico Batera (percussão), Bia Paes Leme (teclado e voz) e Marcelo Bernardes (sopros).

Do coração de uma obra que revisa a si mesma, seu olhar se expande para o mundo. “Que tal um samba?” foi ao mar, ao batuque, ao futebol, à pele escura da Beleza pura, de Caetano Veloso, e desmantelou a “força bruta” antes purgada em Cálice. Na apresentação ao vivo, Chico incorpora citações do Samba da Benção, de Baden Powell e Vinicius de Moraes, e do Samba da Minha Terra, de Dorival Caymmi, situando o gênero na vanguarda da alegria saneadora. Sua consciência histórica assume lugar na filiação ao samba.

“Que Tal um Samba?” (Ao Vivo), certamente, resultou de uma intervenção crítica na música e na história. Em seu arco de cores, o canto de Chico Buarque preserva a suavidade na expressão de violências e explora as inflexões da fala. Impossível não lembrar sua canção Tempo e Artista, em que “o velho cantor, subindo ao palco/ apenas abre a voz, e o tempo canta”. Nesse show, o tempo cantou uma vez mais por Chico e desatou muitos nós na garganta.

Rota Cult
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Redação do site E-mail: contato@rotacult.com.br

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