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“Helena Blavatsky, a voz do silêncio”: Um espetáculo de alento

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Engolfada sob a luz minimalista de Ricardo Fujii, a plateia de “Helena Blavatsky, A Voz do Silêncio” passa por um processo de rememoração de fatos inerentes à moldação da metafísica ocidental do fim do século XIX conforme uma atriz em exuberância plena do domínio do verbo – Beth Zalcman – tensiona a fronteira entre contação de história (ou da História) e encenação no espaço infinito de uma dúvida. A indagação que reina sobre o texto teatral de Lucia Helena Galvão é a hipótese de sinergia entre o imaterial e o mundo físico, cuja fricção gera dilemas da ordem da moral e um novo ethos sobre a existência. Ou seja, saliva se converte em água benta no ritual de ruminação intelectual (e afetiva) que se produz a partir dos feitos e das ideias da escritora russa Helena Petrovna Blavatsky (1831-1891), pilar da Teosofia.

Helena Blavatsky
Foto: Marlon Maycon

“Helena Blavatsky, a voz do silêncio” tem uma singular destreza no fracionamento da palavra, espatifando signos verbais de modo a extrair imagens remissivas do passado da Europa e dos EUA numa sociedade que, sob o fogaréu da Revolução Industrial, reinventava suas normas sociais. Aliás, na encenação, Luiz Antônio Rocha se debruça uma vez mais sob o ciclo de biografias que vem levando aos palcos, a partir do qual cartografou percursos de Frida Kahlo e Paulo Freire. É uma pesquisa cênica contínua, que se desenrola a partir do diálogo, mas se estende à geometria da cena e suas sensorialidades.

Além disso, é difícil não estabelecer um paralelo entre o dispositivo cênico dele e o cinema feito pela alemã Margarethe von Trotta, a partir de “A Honra Perdida de Katharina Blum” (1975). “A questão da vida artística é saber se o passado realmente acabou ou se está ressurgindo algo que todos nós pensávamos que havia sido resolvido, mas que, de alguma forma, ainda estava presente sob a superfície das relações”, disse a cineasta de 81 anos na última Berlinale, em fevereiro, quando lançou o belo “Ingeborg Bachmann – Jornada Pelo Deserto”.

Tal como Luiz Antônio Rocha, Von Trotta é uma biógrafa. Especializou-se nas grandes pensadoras que desafiaram não apenas o sexismo, mas o medievalismo de estruturas sociais em mutação a reboque dos processos de reprodutibilidade técnica. Dois filmes dela, certamente, são essenciais para a celebração da luta feminina contra o obscurantismo: Rosa Luxemburgo (1985) e Hannah Arendt – Ideias Que Chocaram o Mundo (2012). Em ambos a diretora contou com a genial atriz Barbara Sukowa, de Bremen. Luiz tem Beth. Eis um equilíbrio cósmico de forças entre o cinema de uma e o teatro do outro.

O desabafo que Margarethe faz sobre o que ficou inacabado e irresolvido, escondido sob o tapete do Tempo é um dos princípios sob o qual a doutrina teosófica ronda ao propor um entendimento da intolerância, aliás, o jogo que Beth estabelece trava com seu público parte desse caminho: o quanto a tolerância se encolheu.

Zarpa-se, na cena, de uma luz de vela, vetorizada por trevas acachapantes, a partir da qual vemos Blavatsky – a autora de “Ísis Sem Véu” e “A Doutrina Secreta” – em seu dia de despedida deste plano terreno. No silêncio que precede o esporro do fim, ela revisita lembranças de seu viver, pincelando passagens pelo ocultismo e pelos saberes da Índia – o contato com um jovem chamado Gandhi é parte dessa andança.

Eduardo Albini assina o cenário e os figurinos que se impõem em cena com funcionalidade espartana. Tudo parece compacto, franciscano, sereno – como são os filmes de Margarethe. Zalcman é a bomba atômica que, detonada por Luiz Antônio, contagia a cena não de tragédia, mas de sobriedade. É um espetáculo que se preocupa menos com o detalhamento rigoroso do que Helena viveu (embora haja um rigor e um cuidado na vivificação de episódios reais de sua vida) e mais com a angústia que moveu suas ideias. Ideias que aliviam a dor destes tempos de descrença no qual vivemos. É espetáculo de alento. Daí vem o seu sucesso, com cerca de 40 mil espectadores em diversos palcos do Brasil. Que o Teatro dos Quatro galvanize esse sucesso. É raro ver uma atuação tão graciosa como a de Beth nas artes cênicas hoje.

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