Antes de entregar o Urso de Ouro de 2025 ao painel geracional norueguês “Dreams (Sex Love)”, de Dag Johan Haugerud, a Berlinale 2025 consagrou o Brasil ao conceder seu Grande Prêmio do Júri a O Último Azul, do pernambucano Gabriel Mascaro. No enredo desse river movie filmado por Mascaro na Amazônia, o governo brasileiro passa a transferir idosos para uma colônia habitacional para “desfrutarem” seus últimos anos de vida em isolamento. Antes de seu exílio compulsório, Tereza, uma mulher de 77 anos (vivida por Denise Weinberg, numa colossal atuação), embarca em uma jornada para realizar seu último desejo: ter dignidade… para com ela ser livre. Para isso, vai se enfiar numa jornada fluvial com direito a um barqueiro de coração partido (papel de Rodrigo Santoro) e uma vendedora de Bíblias digitais (a cubana Miriam Socorrás). O longa conquistou ainda o Prêmio do Júri Ecumênico e a láurea do Público Leitor do jornal “Berliner Morgenpost”.
“Esta história sobre corpos desejantes aposta na fé que existe no coração das personagens e brinca com a nossa noção de espaço e tempo”, disse Mascaro ao Rota Culta na capital alemã. “Grandes diretores com Yasujiro Ozu e Michael Haneke fizeram filmes sobre a velhice e as dificuldades impostas ao corpo idoso. O que eu busquei fazer foi falar de uma mulher que, depois dos 70, ensaia uma nova possibilidade de vida para si”.
Ganhador do troféu principal da festa, dulcíssimo “Dreams (Sex Love)” é parte de um projeto de trilogia que o diretor escandinavo desenvolveu a fim de entender modos de amar, de gozar e de temer o querer. A trama faz uma ode à literatura ao narrar o processo de escrita de uma adolescente no registro (em prosa) de suas fantasias sentimentais por uma mulher mais velha. “Escrevendo, reinventamos o que somos”, disse Dag ao Rota.
Quem presidiu as escolhas das produções vencedoras foi o realizador americano Todd Haynes (de “Carol”), ícone da produção indie e queer dos EUA. Seu colegiado de juradas e jurados foi composto por três cineastas (a alemã Maria Schrader, que também é atriz; o marroquino Nabil Ayouch; e o argentino Rodrigo Moreno); a figurinista Bina Daigeler, egressa de Munique; a crítica de cinema Amy Nicholson, do “Los Angeles Times”; e a estrela chinesa Fan Bingbing. Esse coletivo atribuiu o prêmio de Melhor Roteiro a “Kontinental ’25”, do romeno Radu Jude, produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira. É um estudo sobre culpa a partir do fardo que uma oficial de justiça carrega depois de ser indiretamente responsável por um suicídio.
Julgado por um júri paralelo, que incluiu a diretora mineira Petra Costa, o prêmio de Melhor Documentário da Berlinale ficou com “Holding Liat”, de Brandon Kramer. É a saga de uma família afoita por notícias de uma parente desaparecida em meio a um atentado terrorista. Terminada a Berlinale, o circuito dos grandes festivais segue com Cannes, que realiza sua 78ª edição de 13 a 24 de maio, com Juliette Binoche presidindo a escolha da Palma de Ouro.
PREMIAÇÃO DA BERLINALE 2025
URSO DE OURO: “Dreams (Sex Love)”, de Dag Johan Haugerud (Noruega)
GRANDE PRÊMIO DO JÚRI: “O Último Azul”, de Gabriel Mascaro (Brasil)
PRÊMIO DO JÚRI: “El Mensaje”, de Iván Fund (Argentina)
MELHOR DOCUMENTÁRIO: “Holding Liat”, de Brandon Kramer (EUA, Israel), com menções honrosas para “La Memoria de Las Mariposas” (Peru) e “Canone Effimero” (Itália)
PRÊMIO PERSPECTIVES: “El Diablo Fuma”, de Ernesto Martinez Bucio (México), com menção especial para “On Vous Croit” (França)
CURTA-METRAGEM: “Lloyd Wong, Unfinished”, de Lesley Loski Chan (Canadá)
PRÊMIO ESPECIAL DE CURTA: “Ordinary Life”, de Yoriko Mizushiri (Japão)
DIREÇÃO: Huo Mong (“Living The Land”)
MELHOR INTERPRETAÇÃO EM PAPEL PRINCIPAL: Rose Byrne (“If I Had Legs I Would Kick You”)
MELHOR INTERPRETAÇÃO EM PAPEL COADJUVANTE: Andrew Scott, em “Blue Moon”
ROTEIRO: Radu Jude por “Kontinental ’25”
CONTRIBUIÇÃO ARTÍSTICA: “La Tour De Glace”, de Lucile Hadžihalilović
PRÊMIO DA ANISTIA INTERNACIONAL: “The Moelln Letters”, de Martina Priessner
PRÊMIO DA CRÍTICA: “Dreams (Sex Love)”
TEDDY: “Lesbian Space Princess”, de Emma Hough Hobbs e Leela Varghes
PRÊMIO DO JÚRI ECUMÊNICO: “O Último Azul”