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A Batalha da Rua Maria Antônia

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2 de outubro de 1968. Rua Maria Antônia, região central de São Paulo. A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP é localizada em frente a Universidade Mackenzie, e seus alunos se enfrentam, há alguns anos, por posicionamentos políticos durante a ditadura. Durante alguns dias, estudantes de direita e de esquerda se enfrentaram como puderam, desde a hostilidade mútua até o lançamentos de pedaços de pau e pedras, até a bombas de coquetel molotov foram atiradas. De repente, um tiro vindo de dentro da Mackenzie atinge um estudante na porta, e isso era o que faltava para desencadear o confronto definitivo. A Batalha da Rua Maria Antônia é um retrato esteticamente sofisticado para um dia de terror envolvendo jovens universitários, um dos muitos pontos agudos dentro dos 21 anos em que durou a ditadura militar no Brasil. 

Pode parecer absurdo, mas a forma como a diretora Vera Egito encontrou para contar essa história não pasteuriza o episódio, acreditando que essa seja uma acusação feita por possíveis detratores. O Cinema, aquele que é feito de forma e conteúdo, ainda é uma forma de arte que pode ser capitaneada por diversas expressões, com repercussões estéticas que não deveriam influenciar no campo discursivo em que se baseia. Logo, A Batalha da Rua Maria Antônia é uma obra que, acima de tudo, requer o direito de contar uma história com o cabedal artístico que assim lhe convir. Se a autora escolheu esse, que lhe apraz e forma moldura adequada ao que estamos assistindo, uma discussão a respeito de preferência de formato me parece vazia, e improdutiva. 

O que Egito promove, acima de tudo, é um exercício de tensão genuíno, filmado com a urgência que sua narrativa pede, e com um recorte estilístico que ajuda nesse campo agudo pretendido. Alicerçados a partir de 21 planos-sequência consecutivos que remontam os momentos antes o tiro, o episódio-chave e a posterior retaliação de parte a parte, A Batalha da Rua Maria Antônia transforma seu exercício em um ponto estratégico para costurar esse estado de alerta. O filme acumula resultados impressionantes a cada nova minúcia de análise que é feita, onde o rigor do que é continuamente construído parece ser testado a cada novo bloco de eventos, onde cada sobreposição desafia a anterior a galgar novos patamares de estupefação.

Como dito acima, forma e conteúdo são elementos basilares do Cinema enquanto formato artístico. Poderíamos, nesse sentido, declarar que as decisões de Egito abafam o tema até eles se tornarem irrelevantes? Esse é um ponto para debate, enfim, que pode ser defendido. Na minha visão, no entanto, tudo que é mostrado em A Batalha da Rua Maria Antônia é impactante o suficiente para que não haja arrefecimento de potência. Seja no recorte factual ou no olhar ficcional (o filme percorre uma votação da UNE que estava verdadeiramente ocorrendo, mas seus personagens e conflitos não são verídicos, em linhas gerais), existe uma conexão real entre o que está sendo contado e a maneira escolhida para tal. Não há choque nessa dualidade, mas sim uma cascata de pavor e deslumbre, enfileirados e simultâneos. 

É como assistir a um processo mecânico de maquinaria, ou uma companhia coreográfica experimental. Nada pode sair do lugar, todas as peças importam e constroem juntos uma comunhão de causa e efeito na tela, sem perder de mão a humanidade. A sequência envolvendo ‘Roda Viva’ pode parecer óbvia, mas ela igualmente funciona na sua tessitura de imagens e na maneira como tal gatilho emocional é ligado pelo espectador. Um dos ditos capítulos, por exemplo, é uma cena de coreografia bastante delicada envolvendo o sexo, fotografado de maneira discreta. Em um filme com tal estrutura, inclusive, nunca será suficiente citar o trabalho espantoso de Will Etchebehere na fotografia, porque o apresentado aqui vai além de predicados e premiações. Na maneira como ilumina cada sequência, em como escolhe o campo certo para focar, em como se movimenta com cada vez mais habilidade em momentos meticulosos, sua união estética com Egito parece redefinir a trajetória de ambos. 

Acima de tudo, A Batalha da Rua Maria Antônia é um desses projetos que estão entre nós para provocar ruptura e reflexão. Seja pelo caráter estratosférico que suas imagens conseguem alcançar, seja pela provocação narrativa em tempos tão polarizantes outra vez, ou por uma vertente que insiste em promover sua leitura estética do que aconteceu, essa é uma obra inquietante. Vencedor do prêmio de melhor filme no Festival do Rio, cada espectador pode ser acessado de uma maneira por sua empreitada: observando um possível vazio sobre a excelência programada, ou a emoção genuína de quem se conecta à beleza de um relógio suíço. Eu fico com a segunda opção. 

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