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 Câncer com Ascendente em Virgem é um afirmação da sororidade como seu mote principal

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A carreira de Rosane Svartman como realizadora se confunde com a chegada da Retomada, período que começa em 1995 com o lançamento de Carlota Joaquina, Princesa do Brasil, para demarcar a volta da produção e lançamento das produções nacionais após o desmantelamento da Embrafilme no governo Collor. Em 1998, ela lança Como ser Solteiro, comédia despretensiosa com a cara do verão carioca que, sem querer, acabaria criando uma identidade de leveza a esse momento. De lá pra cá, Svartman dirigiu outros tantos filmes (incluindo o melhor deles, Desenrola) e se viu transformada em autora de novelas de sucesso público e crítico em tempos de revisão do papel da tv, como Totalmente DemaisBom Sucesso Vai na Fé. Após uma década envolvida na adaptação para as telas de Pluft, o Fantasminha, a diretora assina o surpreendente Câncer com Ascendente em Virgem, uma bola fora da curva em todos os sentidos. 

Baseado inicialmente nas experiências vividas pela parceira de Svartman no cinema, a produtora Clélia Bessa, ao descobrir diagnosticada com câncer de mama, o filme tem como ponto de partida seu blog, que se transformou em livro, e agora vira um filme, com uma encarnação própria. Chamada para adaptação e protagonismo, o que temos em Suzana Pires é um capítulo a parte do qual o texto já se debruça com mais exatidão. O que, na verdade, parece ser um projeto da maneira mais coletiva possível, sendo sua autoralidade distribuída entre as três. Feminino em primeiríssimo lugar, Câncer com Ascendente em Virgem, ao contrário das molas tradicionais do melodrama, não precisa ter foco na competição entre mulheres para fazer sua roda girar, e aposta no extremo oposto: estamos diante de um projeto de afirmação da sororidade como seu mote principal. 

É através da cumplicidade entre suas personagens que temos o desenvolvimento do roteiro que captura sua espinha dorsal, a professora de matemática Clara, para situar suas relações interpessoais em um momento de crise profunda, através da descoberta de seu câncer. A partir desse ponto, o filme desenha sua relação com a mãe, com a filha adolescente, com a melhor amiga, com uma nova e fundamental amiga, incluindo também o ex-marido e a nova esposa do mesmo. Tudo é situado de maneira delicada, mas sem perder seus pontos agudos: estamos diante de uma comédia de costumes, de um drama tocante, de um retrato feminista acerca de famílias encabeçadas por mulheres, cada uma dessas coisas unitárias e também o funcionamento delas juntas. 

Não é exatamente com sensibilidade contínua que Câncer com Ascendente em Virgem é formatado, no entanto. A relação dos dois personagens masculinos, vividos por Ângelo Paes Leme e Heitor Martinez, com a narrativa é absolutamente acessória, quase na rinha do dispensável; o segundo tem apenas algumas linhas de diálogos em uma única cena. Paralelo a isso, algumas cenas tem excesso de dramaticidade, justamente quando poderiam ser menos, digamos, ‘extravagantes’ – a cena dos véus, por exemplo, funciona muito mais por ter a música composta por Flavia Tygel na linda voz de Preta Gil; sem isso, a cena seria só desnecessária. Mas os lados positivos da produção não apenas se sobrepõem ao todo, como tornam a experiência emocionante de verdade, além de redentora. 

A coesão do elenco, em tom e unidade dramática (e cômica), é um grande acerto, o que mostra a mão acertada de Svartman nessa condução geral. O espaço etário entre Marieta Severo e Nathália Costa é um lugar de qualidade, para citar um dado; avó e neta, a cumplicidade entre ambas salta aos olhos. Carla Cristina Cardoso é um desses casos de furacão que não cansamos de observar, e precisamos falar sobre Fabiana Karla. Impressiona de verdade todo o trabalho da atriz, seja vocal, corporal ou emocional, o que vemos é uma atriz pronta para o desafio que for, de qualquer ordem. Nossa sensação ao término da sessão é de que, embora o talento de Karla já fosse conhecido há décadas (alguém lembra da memorável presença dela em O Palhaço?), aqui a atriz demonstra uma entrega técnica e psicológica que não temos medida pronta. Em uma palavra, genial. 

Mas nenhum texto a respeito do filme terá validade sem abordar o corpo de trabalho de Suzana Pires. Ela é a união de todas as potencialidades do filme, e representa duas delas; ela está à frente dos campos de diálogo do filme, de sua estrutura que monta os gêneros e desmonta com igual destreza, e ela é seu rosto. Câncer com Ascendente em Virgem não teria 50% de sua verdade, caso a atriz escolhida tivesse menos consciência de sua entrega, da qualidade que a sua performance validaria todo o discurso, e de como esse é o projeto de uma vida. Suzana sabe disso tudo, e o mais refrescante, realiza seu ofício sem medo e sem perder os olhos do equilíbrio que precisa representar, sua própria voz e seu próprio estado, de que está na corda bamba dos gêneros também. Uma atriz renovada, que nunca tinha se permitido tamanha verdade, e que aqui se despe dos quilos de estereótipos ao qual foi impingida boa parte de sua carreira. Junto a Karla, duas entregas fora do comum – e quem disse que uma produção popular não pode desenvolver tanta substância? 

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