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Desconhecidos promove guerra dos sexos

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Vendido como filme de terror, creio que, assim como Presença, um tanto do público se sentirá traído por essa definição ao se deparar com Desconhecidos. Se era pra conectar sua linguagem com a de outro recorte cinematográfico que pudesse criar algum comparativo, poderíamos colocar em algo como… ‘uma versão pseudo-feminista de algo que Quentin Tarantino faria’? Parece que estou do lado dessas discussões “modernosas” (e que acho de verdade ruins) a respeito de uma espécie de destrinchamento do terror, o tal pós-terror, o terror que não se assume como tal, etc., mas não se trata disso. Esses dois casos, e talvez até mais precisamente esse, vejo como propostas que tentam se apropriar do terror para encontrar um público guarda-chuva, que abrigue mais divisões.

Sim, existe muita violência e alguma crueldade em Desconhecidos, mas não mais do que é feito em Cães de Aluguel ou Bastardos Inglórios, que não se notabilizaram por seu gênero. O filme parece mais afeito a explorar aspectos comportamentais de hoje, discutir práticas comuns nas buscas por relações (vazias ou não) e, como não podia deixar de ser, promover alguma guerra dos sexos no meio do arranjo. Tematicamente, o contexto é válido e suas articulações cabem dentro da proposta, não há excessos dentro do que se observa, e os truques do roteiro encontraram comunicação, tanto que o filme se tornou uma espécie de exemplo de sucesso nesse caso. Mas o quadro final carece de organicidade, soando falso em grande parte do tempo. 

Além disso, outra característica que o atesta como um produto de inspiração ‘tarantinesca’ seria a divisão da narrativa em capítulos, e não somente isso. A apresentação dos mesmos não obedece a ordem tradicional, ou seja, o filme não exatamente começa pelo seu início, e vamos chegando a conclusões posteriormente ao acontecimento dos fatos. A admiração por Pulp Fiction, de tão óbvia, quase soa ingênua, mas a verdade é que saímos verdadeiramente impressionados com o diretor e roteirista JT Mollner, que em seu segundo longa-metragem já demonstra tanta ambição. O que ele faz como escritor até pode soar como algo já visto tantas vezes por aí, mas a construção de tensão que ele promove enquanto realizador não pode ser ignorada. 

O problema em Desconhecidos começa quando as coisas começam a não soar tão ingênuas assim, e um lado meio dissimulado parece ser denunciado pelo que é contado. Isso porque esse conto sombrio sobre um encontro às escuras entre dois desconhecidos através de aplicativo tende a nos mostrar um lado problemático na forma como são desenvolvidas as questões femininas. Sem entrar em spoilers (e acredite, falar sobre o filme é tentar fugir de uma dúzia deles), podemos dizer que Mollner não consegue colocar em lugares igualitários seus dois personagens, e é exatamente o que ele tenta fazer. Na ânsia de aparentar algum progressismo, o filme invade uma zona perigosa de representação, resvalando em possibilidades de conclusões machistas aqui e ali. 

Além disso, existe um excesso de estereótipos em seus personagens, como se houvesse a necessidade real de tais tipos se comportarem assim ou assim, em determinado contexto. O casal coadjuvante de Desconhecidos é especialmente mal escrito, e isso não é um problema de dois atores tão excelentes quanto Ed Begley Jr. e a imensa Barbara Hershey, que parecem saídos de algum manual clichê. Isso acaba por mostrar outras fragilidades do projeto narrativo, como a certeza do filme em estar sendo absolutamente surpreendente, quando a apresentação dos eventos fora de ordem só poderia ter um significado oculto, que é justamente o que Mollner apresenta, e que ele crê muito ser uma quebra de paradigmas. Não é. 

Desconhecidos tem dois trunfos poderosos a seu favor, justamente a dupla de intérpretes centrais, vividos por Willa Fitzgerald (que também estreia nos cinema com Código Alarum) e Kyle Gallner (de Sorria). A forma como sustentam a força de qualquer possível ambiguidade em cada diálogo carrega de força seus embates, antes, durante e depois do confronto. Desde os momentos ainda serenos, passados no motel onde escolhem ir, é a entrega de ambos para o jogo que o filme propõe que nos conecta a uma causa superior, a uma discussão sobre mudança de percepção social de gênero, que o roteiro não lhes dá respaldo a todo tempo. Mas eles finalizam suas inserções sempre com mais inteligência emocional do que é proposto pela obra, elevando seu resultado. 

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