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Steven Soderbergh lança filme com caráter espirita

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Vendido como um ‘filme de terror’ de Steven Soderbergh, esse Presença estreia essa semana sem fazer jus a esse título. Mas a verdade é que talvez a venda mesmo da produção por parte dos seus responsáveis – distribuidores e produtora – induzam a um erro que o cineasta não parecia muito preocupado em apresentar. Sim, o filme até contém alguns elementos do gênero, ou vá lá, mais do que alguns, mas a forma como a narrativa se desenrola, a estranheza das escolhas estéticas do diretor, e o próprio teor do que está sendo contado gradativamente afasta a produção desse lugar. Longe de pretender comunicação direta como tantos dos filmes do diretor de Traffic, essa é possivelmente o dado essencial para entender onde se encaixa cada coisa aqui. 

Steven Soderbergh

Steven Soderbergh rapidamente estabeleceu em sua carreira dois pólos distintos. Existem os filmes de estúdio, com orçamentos maiores, que existem quase exclusivamente para divertir, encontrando motivos diversos para provocar o êxtase do espectador, e tem uma outra artesania que seu trabalho ocupa, quase em igual medida. Esse é um filme da segunda categoria, menos estroboscópico, com uma proposta de  experimentação, um olhar menos viciado para o cinema e para os códigos que ele mesmo ajuda a categorizar. Ambientado em um único cenário com funcionalidade irrestrita, Presença é uma dose de seu diretor a um controle sobre as coisas que não consegue desenvolver em parcerias com grandes estúdios. 

A apresentação da ideia poderia ser desenvolvida sim com o fantasmagórico na linha de frente, mas o tom adotado para Presença rapidamente se esvai dessa possibilidade, chegando até uma experiência onde o caráter espírita é desenvolvido com mais substância. O que vemos é aquele conceito tradicional onde uma família desestruturada por uma tragédia se muda para uma casa nova onde rapidamente percebem não estar sozinhos. Mais diretamente a filha adolescente, que acabou de perder a melhor amiga, tem sua sensibilidade aflorada pelo contato com a força sobrenatural presente na casa. Ainda que não falte uma dose de tensão ao que assistimos, o que está na linha da frente é uma discussão muito mais abrangente que Presença observa sem a aproximação adequada. 

A família em ruínas apresenta um tanto de questões que Soderbergh tenta se dedicar, mas os códigos do cinema de gênero parecem pesar contra o processo. Mesmo que sua intenção fosse situar como um pano de fundo tais conceitos do terror, o diretor não consegue manter à margem da discussão suas colocações do horror. Fica claro sua preferência em contar a história do quarteto familiar, mas a cada avanço dramático (a cena do pai indo falar com um amigo ao telefone do lado de fora da casa é bastante inspirada pelos lugares onde chega), o filme apresenta a quem assiste suas necessidades estruturais. Mesmo sendo uma produção tão pequena, de duração e escopo, temos a clareza da ausência de muitas tramas. 

A divisão da filha é a mais recheada de elementos. A vida da jovem é rica no antes, no durante e no depois de Presença, mas além da atriz Callina Liang não ser boa o quanto o roteiro precisava que ela fosse, torna-se explícito o quanto sua narrativa tem mais nuance. Isso vai tirando a atenção dos outros personagens, que veem suas interações cada vez mais areadas. Em alguma concentração de espaço, isso não ajuda a sua intérprete, e ainda perde força com sua postura muito deslocada. O que vemos é uma espécie de ausência, em filme cujo título atenta para o oposto; não uma interpretação ali, e sua colocação equivocada respinga no resultado final. 

Ainda assim, mesmo inferior ao Código Preto que o cineasta estreou mês passado, ainda existe alguma sedução em Presença, provocado pela característica surreal de acompanharmos a produção a bordo da primeira pessoa do plano, sendo essa essa “pessoa”… bom… o espectro né? Ele caminha pela casa, ouve as conversas, e interage com os personagens, ora de maneira suave e quase testemunhal, ora deixando transparecer sua revolta com o que assiste. Poderia existir uma assombração que o espectador nunca vê ser o melhor personagem de uma obra? Se era ou não a intenção de Soderbergh, o caminho foi alcançado; nos importamos mais com os sentimentos de quem foi do que de quem fica. E essa é mais uma análise do quão espírita é a obra, sobre o que foi filmado e apresentado agora. 

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