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Lispectorante: Clarice Lispector é inspiração poética para uma história de amor

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Em determinado momento de Lispectorante, a personagem protagonista é indagada sobre quem seriam aquelas pessoas que chegavam à sua casa, e ela responde: andarilhos. É fácil imaginar Renata Pinheiro, a diretora e roteirista por trás da obra, como um desses seres, artistas multifacetados com uma gama de particularidades artísticas e que se apresentam em performances contínuas de transeuntes. Ao observarmos sua filmografia, o que salta aos olhos não é exatamente a linha que une tais trabalhos, mas a maneira como eles se conectam a uma espécie de linha onírica de percepção da realidade. Exercendo seu ofício de forma a explorar o mambembe dentro da demonstração artística, esse talvez seja o momento onde sua capacidade de experimentação se embrenha com mais força na narrativa. 

Lispectorante

Ao contrário do que possa parecer, Clarice Lispector não funciona como uma moldura para o que vemos, e sim um ponto de partida de significância simbólica. Glória, a protagonista do filme, é uma mulher assolada por um encadeamento de perdas consecutivas, que a submergem em um aparato além da melancolia. Ela se vê à beira de um espaço de abandono tão profundo (incluindo de si mesma), que seu próximo passo rumo a uma nova realidade é a fuga gradual do vício da normatividade. Qualquer estágio de padronização será continuamente rechaçado, e isso não parte apenas de suas personagem central, mas principalmente do olhar que Pinheiro lança em direção a Lispectorante

Se em filmes anteriores como Carro Rei Amor, Plástico e Barulho Pinheiro lançasse um olhar direto ou indireto para o sonho e a fantasia, dessa vez o mergulho é mais abrangente. Partindo de uma linha menos concreta mesmo quando tenta apresentar seu ponto de partida, Lispectorante abre uma discussão a respeito dos conceitos de entendimento e subjetividade no cinema, que vez por outra voltam a mediar debates. Isso porque a cineasta parece querer mais sentir sua protagonista, e deixá-la embarcar no próprio delírio construído pelo desespero e pela vontade de abdicar do real. A partir de um buraco encontrado na parede da casa de Lispector, o filme se sente à vontade para convidar o espectador a um mundo sem regras.

Essa sensação se dá pela recusa da narrativa (ou o que se parece com uma) em obedecer padrões estabelecidos dentro de um manual. Desde as ordens técnicas e estéticas, Lispectorante não conta com um compêndio de regras, e talvez até procure desqualificá-las diante de suas características mutantes. A partir de um conceito de liberdade narrativa que cabe muito no projeto, o filme monta novas abas de entendimento coletivo que não estão interessadas no que o espectador compreenda. A apreensão do que vemos não é de origem assertiva, e sim baseada em uma experiência sensorial, e diante de combinações pouco ortodoxas, o filme abre espaço para si mesmo criar imagens rebeldes. 

Jogando com o que pode ser traduzido, Pinheiro escala Marcélia Cartaxo como figura central e isso é a metade do caminho para a identificação. Em mais um belo momento, a atriz de A Hora da Estrela recebe um parceiro de cena à altura, Pedro Wagner (de Carvão). Ainda não descoberto pelo grande público, o rapaz vive uma história de amor com a estrela que engrandece o material, e ressignifica nossas certezas acerca da intérprete. Paralelo ao que é excessivamente delirante em Lispectorante, Cartaxo e Wagner estabelecem uma relação carnal que rasga a motivação do que é imaginário com algo palpável. Repletos de carisma e entrega, os atores nos levam para dentro de um desdobramento da narrativa que é o que captura o espectador, e isso acaba por retirar dos símbolos do filme sua força. 

E reside aí a gangorra que se encontra o filme, que aposta em saídas poéticas e devaneantes, e deixa de lado o que carrega sua força, um romance entre duas figuras desvalidas e que a sociedade tenta apagar junto à uma cidade em processo semelhante. Toda vez que o casal está em cena, Lispectorante ganha a força que lhe falta quando tenta dar espaço para caminhos mais abstratos, como a presença de Grace Passô. O processo que leva aos desencontros estabelecidos em roteiro e que jogam a trama em direção ao apagamento da geografia e de quem a constrói, isso sim carrega a força da poesia que as imagens vez por outra insistem em reconfigurar além do necessário. Ao final da sessão, todo o poder estético que a fotografia da genial Wilssa Esser (de Temporada) expressa, advém de um romance que encontra no desarranjo sua força motriz. 

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