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Superman, de James Gunn, encara a kryptonita da xenofobia

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Ciente de que no peito do Homem de Aço bate um coração que usa óculos, o que você vai encontrar no Superman, de James Gunn, são diástoles e sístoles, ou seja, movimentos de tensão num músculo Pop que volta a bombear fantasia, das mais escancaradas, pelas veias do audiovisual. Não espere comparações com a obra-prima de Richard Donner (1930-2021), lá de 1978, com Christopher Reeve (1952-2004) a encarnar a máxima “um homem pode voar”. Ali havia uma carga épica, numa base de fábula moral. No filme de Gunn, você vai passar duas horas com a sensação de estar com um almanaque nas mãos.

Nos anos 1980, a Ed. Abril publicava “Superamigos” e “Superpowers” que traziam sagas cheias de cor, numa orgia de tintas (sobretudo ciano e magenta) no papel, no chamado “formatinho”, com revistas 13 cm x 21 cm, nas quais o melhor da DC Comics era traduzido para o português. A gente se deleitava com as investidas do androide Brainiac sobre Metrópolis e a luta para que a cidade engarrafada de Kandor não passasse por uma entropia que desse trabalho para Kal-El, o nome kryptoniano do Homem de Aço.      

Esse clima nostálgico permeia sinestesicamente o filme de Gunn, sobretudo na paleta que colore os enquadramentos da direção de fotografia de Henry Braham. Sua luz permite que a cidade de Metrópolis do filme se aproxime (como nunca se viu) da geografia estruturada por Jerry Siegel (1914-1996) e Joe Shuster (1914-1992), os criadores de Kal-El, nos quadrinhos, em 1938. Além disso, a direção de arte também vai flertar com a matriz quadrinística. 

Lembra-se mais da fase escrita e desenhada por John Byrne, lançada aqui na década de 1980, a fim de recontar a história de Kal-El do zero, desde a infância em Smallville (ou Pequenópolis, como se traduzia aqui) até sua chegada ao Planeta Diário, com as primeiras esnobadas de Lois Lane. Byrne pintou um Super-Homem vulnerável, cheio de fraquezas corriqueiras, incapaz de resistir à magia de Banshee Prateada ou à hipnose de Jericó, abrindo espaço para um rol de personagens que rendeu à DC uma fauna demasiadamente humana. Gunn segue nesse mesmo caminho.

A escalação de David Corenswet mantém a linhagem kryptoniana viva (e adulta), assumindo o papel de Kal-El e de seu alter ego, o repórter Clark Kent. Ele acredita que Kent é um cosplay de gente, um disfarce para que um alienígena com a força de um deus possa andar entre os mortais… e amar. A linha central do roteiro é a aceitação. 

A Lois Lane de Rachel Brosnahan persegue a verve empoderada da personagem e tem viço para além da proximidade com Kal-El. Como nos quadrinhos de Byrne, ela é uma injeção de realismo num contexto fantástico, funcionando como a medida de pertencimento que um ET dos confins da galáxia pode encontrar. Graças ao desenho tridimensional da jornalista, temos sequências de diálogos que arranham a filosofia, num debate sobre ética. Há uma sequência de idílio pleno também, de fazer inveja a RomComs como Uma Linda Mulher (1990). É, certamente, um indício a mais de que Gunn sabe ser nostálgico. 

Essa sua celebração de tradições não limita o coeficiente trágico de geopolítica desse inquieto longa-metragem, encarnado na figura de Lex Luthor. Nicholas Hoult, sublime em cena, faz dele um monstro. Esquece aquele Lex à moda Wilson Grey de Gene Hackman (1930-2025) lá na joia de Donner. O bicho aqui é ruim. Sabe ruim? Pois é, esse Lex dá medo, como o dos comics de Byrne. Ele encarna o racismo, na vertente da xenofobia. Ele odeia o Superman por este ser um ET, e só. Sua raiva vem da segregação. 

Por sorte, Kal-El agora tem um cão, Krypto, que rende situações de adrenalina nos píncaros da glória. Tem ainda uma trupe porreta como coadjuvante, formada pela guerreira alada Mulher-Gavião (Isabela Merced), o inventor ricaço Sr. Incrível (Ed Gathegi, que quase rouba o filme para si) e o Lanterna Verde doidão Guy Gardner (Nathan Fillion). 

Quem tem uma galera dessas do lado pode peitar a intolerância de Lex numa trama de recheio sociológico, com duas sequências (bobinhas) pós-crédito, onde o que vemos é Kal-El deixar o Clark dentro dele falar mais alto. É o menino de óculos que vai para o alto e avante. Gunn já havia dado provas de ser um artesão autoral em seus “Guardiões da Galáxia”, sobretudo nos volumes I e II, de 2014 e 2017. Fez o mesmo em “Esquadrão Suicida”, em 2021, com seu iluminado Pacificador (John Cena), que faz ponta aqui. 

As destrezas do diretor no passado foram grandes, mas a excelência que alcança com “Superman” supera o que fez antes. É um filme para ficar no lado esquerdo do peito e, se possível, salvar a combalida realidade atual dos longas de super-heróis, em crise desde o pavoroso “Thor: Amor e Trovão” (2022), de Taika Waititi.

Aliás, o Spotify lançou uma playlist oficial que vai além da trilha sonora: ela mergulha de cabeça na mente dos personagens e propõe uma pergunta instigante — o que cada um deles estaria ouvindo nesse momento?

Com curadoria assinada por James Gunn, diretor e roteirista do filme, a playlist é dividida em blocos temáticos por personagem e conecta música e narrativa de um jeito totalmente imersivo. Mais do que sons de bastidor, é uma viagem emocional pelo universo do longa.

Destaques da playlist:

É conteúdo perfeito pra fãs de cultura pop, música e cinema que querem entrar no clima do filme antes mesmo de chegar na sala. E com selo de curadoria pessoal do próprio James Gunn, não tem como não querer ouvir.

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