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O Último Azul celebra o desejo como instância de libertação

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Terreiro por onde circulam energias de verve política, o Berlinale Palast, na capital alemã, não é afeito a emoções desbragadas. Aplausos, ok! Gritos de ‘Bravo!’, raros, ok também! Agora as ovações… estas são incomuns, sobretudo uma com o ardor da acolhida a O Último Azul, do Brasil, em fevereiro. Não à toa, a produção saiu do evento com o Grande Prêmio do Júri. Não se deixa esse filme incólume. É uma sessão de descarrego. 

Gabriel Mascaro, seu diretor, é um artista pernambucano que celebra o corpo, nas vontades e nas carências. “Ventos de Agosto”, que lhe valeu menção especial no Festival de Locarno, em solo suíço, em 2014, serviu de estandarte a seu olhar sobre como peles se complementam. A completude das carnes inspirou “Boi Neon”, Prêmio do Júri em Veneza e troféu Redentor de Melhor Filme no Festival do Rio, há de anos

A própria Berlim funcionou como pouso de seu subestimado Divino Amor (2019), onde a igreja fundamentalista encontrava no gozo uma forma de se chegar ao Altíssimo, ainda que por sobre regras. Sempre há coleiras morais nas triagens de Brasil que ele faz. Em “O Último Azul”, elas passam por um rastro distópico.

O país que vemos no filme, em perímetro amazônico, é um porvir. Um país de um amanhã que descarta a velhice a partir de campos de concentração disfarçados de asilos. Existem máquinas, os Cata-Velho, que arrastam as populações “70 mais” para esses resorts. Seus condutores tão de olho em Tereza, personagem que põe Denise Weinberg nos alpes da consagração cinéfila. 

Funcionária de um curtume especializado em couro e carne de jacaré, Tereza tem 77, mas se sente na flor de sua potência, pois tem gana de viver e está aberta ao amor. Como é de praxe na filmografia de Mascaro, seu corpo é pura querência e está em fricção. 

Para escapar do xilindró para cabeças grisalhas, ela cai na estrada, não aquelas pavimentadas de cimento, mas, sim, de água. É pelo sistema fluvial amazônico que ela se desloca, como as figuras criadas por Werner Herzog (outro especialista em cruzadas passionais) faz. Tereza não é Aguirre, herói por excelência do cinema herzoguiano mas tem fúria de conquista como a dele.

Aguirre (imortalizado por Klaus Kinski) queria conquistar a América. Tereza só quer conquistar a liberdade. Os afluentes do Amazonas os unem no imaginário cinematográfico. Em seu caminho por um Éden verdejante, ela vai contar com o apoio de um barqueiro de coração quebrado.

Ele se chama Edu e tem como cavalo um Rodrigo Santoro em estado de graça. Seu peito foi espatifado quando Deusinha, sua amada, abandonou-o. Revê-la é seu norte, no Norte. Ele sabe muito sobre cabotagem e sabe um bocado dos mistérios da Natureza, como o Caracol da Baba Azul. 

É um molusco danado de raro. Sua seiva azulada garante clarividência a quem a pinga nos olhos. É como uma metáfora da função colírio que os bons filmes têm: dilatar retinas, enxergar além. No transe do caracol, Edu repensa seu miocárdio espatifado. Tereza parecia em paz com o dela, mas vai se abrir para o querer. 

O trânsito para escapar dos Cata-Velho a leva até Roberta (a atriz cubana Miriam Socarrás), uma vendedora de Bíblias digitais. No evangelho do benquerer, as duas terão recomeços. A homilia que se desenha em volta das duas é o mapeamento de um país em que as crendices (nas raias do realismo mágico) e as asperezas do real se trombam. A montagem de Sebastían Sepúlveda e Omar Guzmán torna essa trombada mais serena, numa dimensão encantatória. 

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