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Uma Batalha Após a Outra: Paul Thomas Anderson satiriza autoritarismo nos EUA

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Para além do significado histórico de uma revolução e das lendas que são criadas a partir de seus resultados, muitos heróis anônimos compõem o mosaico de um movimento. Adaptando um romance de Thomas Pinchon (o mesmo de Vício Inerente) com as liberdades possíveis para torná-la sua, Paul Thomas Anderson investiga os valores individuais que permeiam cada ação macro em Uma Batalha Após a Outra, forte candidato a melhor filme do ano. Ele o faz de maneira que deveria ser perseguida por outros autores como um sinal qualitativo – entender que sua proposta de urgência é suficiente para incorporar o espírito do tempo, e partir daí para emoldurar a verdade pretendida. O resultado espanta, pela quantidade de acertos alcançados na totalidade da narrativa. 

É verdadeiramente muito bom assistir a uma produção que acredita no espectador, e na capacidade de quem assiste adentrar uma história sem que a mão precise ser pega e levada adiante. Toda a já anunciada urgência do empreendimento passa por esse cada vez mais raro olhar para o desprendimento da indução narrativa; alocar a ação na tela, e simplesmente encená-la. Ao contrário do que normalmente é feito no Cinema, Uma Batalha Após a Outra nos carrega exatamente para o momento filmado, para a força da palavra dita e não rememoradas, para o instante exato onde algo acontece, sem ‘flashback’, narração explicativa ou diálogos expositivos. Estamos crus diante da tela, e o sabor vai sendo acrescido vagarosamente, em tempos de plateia indócil, e da cobrança insana por assertividade. 

Paul Thomas Anderson, responsável por filmes já clássicos como Boogie NightsSangue Negro Magnólia, toma pra si aqui o direito de ser independente. Ele sabe o que contar e como, e mesmo gastando 150 milhões de dólares dos cofres da Warner, coloca na tela com a força de uma realização absolutamente livre e sem concessões. Não há espaço em sua filmografia para algum paternalismo, em Uma Batalha Após a Outra, ele extrapola seus próprios limites, ao arremessar o público no olho do furacão sem amarras e sem cinto de segurança. A exigência da narrativa é com a imersão sem limites, e somos levados a linha de frente de um grupo revolucionário em sua efervescência – até chegar no ocaso de um de seus líderes. A partir daí, os conflitos surgem de novas ordem, no embate entre a importância do coletivo e do individual, e como uma coisa influencia a outra. 

 Acima do que vemos, a narrativa de Uma Batalha Após a Outra não poderia ser mais atual, com o assassinato de Charlie Kirk nas capas de jornais do mundo, e a visão genocida de vários líderes mundiais sendo desmascaradas sem pudores. O filme não dá voz ao Estado, nem pretende ser o retrato de algum nome particular de qualquer ordem; trata-se de uma ficção cujos ecos são evidentes ao nosso tempo, ainda que Anderson abdique de uma visão a respeito de qualquer época. O resultado não somente soa atemporal, como conversa com o filme que se desenha como provável rival na corrida de prêmios: a comunicação entre o que é gestado aqui e em Pecadores, de Ryan Coogler, é uma prova de que o ‘zeitgeist’ aponta para esses lados afins. 

A política em larga escala, que cala e mata negros, latinos e pobres, direta ou indiretamente, e que nas mãos de Coogler fazia uma história de 100 anos atrás soar tão contemporânea, encontra similaridades no que Anderson está bradando aqui, onde a contemporaneidade não disfarça as visões ancestrais dos seres mais abjetos possíveis. É observar a desfaçatez com que grupos de homens racistas se reúnem como se senhores de escravos ainda fossem para decidir o futuro de quem não lhes diz respeito, e temos a impressão de que Uma Batalha Após a Outra não tenta esconder seus gritos. Através de uma história que encampa a profundeza das escolhas humanas, e em como para cada uma delas, outra renúncia é feita, o filme mostra com intensa paixão o que se esconde nos corações dos lados opostos de uma mesma guerra. 

O trabalho gráfico que a mise-en-scene de Anderson entrega, no entanto, é uma força que suplanta os discursos, sem desmerecê-los. É um trabalho conseguido através de câmeras VistaVision (a mesma usada para O Brutalista), que amplifica o escopo das imagens até onde os olhos alcançam. Para um projeto que tem clara inspiração, na sua zona de reconhecimento, na criação do faroeste americano e nas imagens que o gênero proporcionou ao cinema clássico estadunidense, não teria essa uma utilidade mais apropriada. Todo o material filmado é realçado por essa escolha, mas o clímax do filme, que é um recorte dentro de um jogo de gato e rato pelas estradas norte-americanas, possui um caráter vertiginoso real, não se tratando apenas de uma captura de imagens excepcional, mas um momento de cinema inesquecível e exasperante a partir de um ponto de vista incômodo. 

Como é tradicional, Paul Thomas Anderson escolhe a dedo seus intérpretes, e o corpo de elenco de Uma Batalha Após a Outra captura a energia exata do que tal narrativa pede. Benicio Del Toro é um festival de carisma em cena, em um papel que lhe dá a oportunidade de exalar luz. Leonardo DiCaprio continua sua saga na intenção de ter uma filmografia não apenas impecável, como repleta de momentos cheias de camadas para contar uma história; seu Pat é uma hidrelétrica em dois momentos distintos, e que em determinado momento parece destinada a sucumbir diante de tanta força, e ele prova seu gigantismo mais uma vez. Mas nada poderia nos preparar para Teyana Taylor e Sean Penn, ou melhor, sim, dele poderíamos esperar algo dessa magnitude. 

A jovem atriz de 35 anos tem carreira ascendente e tudo leva a crer que são fáceis suas chances no próximo Oscar, assim como as de Penn; seus personagens carregam características contrastantes de intenção, mas vibrando na mesma intensidade. A câmera acompanha não apenas os atores, mas seus corpos, seus rostos, seus gestos, seus olhares, suas reações a cada nova ação, com extrema meticulosidade, no que ambos respondem de maneira sobrenatural. A ausência de Taylor, em determinado momento, faz eclodir em Uma Batalha Após a Outra uma reverberação extra, a respeito dos conceitos de liberdade em um mundo como aquele. Lutar por ela é a parte fácil, mas nem sempre conseguimos aplicá-la em causa própria, criando uma dicotomia que pode destruir o pouco (ou o tanto) que se construiu. Essa é a zona cinzenta onde se esconde essa nova obra-prima de um dos mais brilhantes gênios do cinema moderno. 

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