- Publicidade -

“A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Roobertchay” desafia a temperatura e a pressão da palavra

Publicado em:

No peito do Homem de Aço, bate um coração que usa óculos. Esse coração se chama Clark Kent, um ser que, na prática, não existe. Quem existe é Kal-El, herdeiro do trono de Krypton, um planeta reduzido a cinzas. Para curtir um devir humano, Kal-El faz cosplay de gente e finge ser míope. Nessa, arruma emprego (vira o Pedro Bial do Planeta Diário), engata num namoro (com Lois Lane), mas segue sendo… estrangeiro. Roobertchay Domingues da Rocha Filho não veio desse mesmo canto das galáxias. É de Vila Velha, no Espírito Santo, mas criou seu cosplay, Chay, e, com ele (à força de muito talento), virou um Tarcísio Meira dos novos tempos.

“PEÇA INFANTIL – A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Roobertchay” trata dessa conversão, do garoto de Vila Velha em (bom) ator da TV. Como o Zelig de Woody Allen, ele estava no lugar certo, quando a onda passou. 

O espetáculo, contudo, não é sobre o Chay que brilha nas novelas. Não é sobre a flor, é sobre o chão de onde ela brota, como se Clark Kent resolvesse falar do Superman. Como se o alter ego contasse, do seu jeito, o que o corpo que o carrega passou. Para isso ele fala… palavreia.   

Adélia Prado, poeta oracular, avisou: “A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda, foi inventada para ser calada”. Aliás, o Roobertchay que mora em Suede preferiu ficar com a segunda parte desse poema-alerta (“Em momentos de graça, infrequentíssimos, se poderá apanhá-la (a palavra): um peixe vivo com a mão”) ao encenar “PEÇA INFANTIL – A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Roobertchay”. 

Chay de ator, virou falador. Fala a dor. Encara, em cena, uma maratona onde quem corre é o verbo.  No palco, enfarpelado numa beca elegante, entra em cena qual um Miele a apresentar seus shows. A diferença é que não convoca coristas e músicas e, sim, memórias, inclusive aquelas que criou sem ter tempo de viver. O telão à sua frente vira seu Carnegie Hall. A Broadway de seu relato parece “Fantasia” (1940), de Walt Disney: substantivos e advérbios dos mais estrambóticos se animam em seu falar, numa espécie de mockumentary de si mesmo… só que “autogeográfico”… com o Espírito Santo em foco.  

A elegância da direção de arte de Daniela Thomas, certamente, nos convida a lembrar de “Barry Lyndon” (menos o livro, de 1844, e mais o filme de 1975, dele derivado), pela semelhança temática. O romance de William Makepeace Thackeray (filmado magistralmente por Stanley Kubrick) e a peça aqui em foco, escrita por Felipe Hirsch e Caetano W. Galindo, falam de heróis acidentais que, navegando as águas da História com retidão, chegaram a alguma glória. 

Lyndon beirava a nobreza (e caía dela). O protagonista de “PEÇA INFANTIL – A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Roobertchay” é informado de que virou celebridade. Se lido numa relação especular com a vida Chay… ele virou, como dito acima, o Tarcisão dos novos tempos. Dá para embarcar no experimento de Galindo e Hirsch (também responsável pela direção) por esse prisma. Mas fica melhor quando se distorce a figura do fundo.

Fora do uniforme azul e vermelho do Homem de Aço, o S que em kryptonês quer dizer “esperança” é só um S. Roobertchay, descolado de Suede, é tipo o Tristram Shandy de Laurence Sterne (1713-1768), autor muitas vezes citado no texto. Tratando-se da grife Felipe Hirsch é natural que as literatices entram em fervura. 

Na herança dos satiristas, Tristram é um Macunaíma que narra sua própria vida numa lógica digressionista, dinâmica na qual um fato trivial puxa alguma situação exemplar da Europa de outrora. A estrutura é tão complexa que o cinema só conseguiu tirar UM filme (e ainda assim um filme bem marromeno) dali, e só em 2005, via Michael Winterbottom, com Steve Coogan. 

Numa certa medida, Winterbottom fez, como Hirsch e Galindo, um “jogo de armar”, um falso doc. em forma de transposição histórica. O humor permite que ele tome emprestado de Sterne uma forma de executar uma crônica dos nossos descalabros do presente. Com Rooberchay não é diferente. Tristram tinha um tio, Toby. Nosso protagonista tem um Toby também, o tio Ziza.
 
Todo mundo tem um Ziza ou um Toby. De mesma forma, todo mundo fantasia parte daquilo que viveu. Recordar é fazer a vivência pular corda. Ao fim do pulo, ficam os resquícios, só que temperados de saudade (ou de melancolia). Toda lembrança pode ser um épico, como as de Tristram… ou as de Roobertchay.   

Sendo assim, recorda-se (de um jeito inventado) uma penca de coisa em “PEÇA INFANTIL – A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Roobertchay”, ao longo de 12 capítulos. As peripécias de um pai bom de Corel Draw, um sensei de judô craque de lábia e a ExpoTuba, uma espécie de Disneylândia capixaba de tubarões arranca risadas da plateia, conforme o menino que virou Chay “canta para subir”.

O saldo de gols, para o placar da seleção Hirsch, é o avanço de casas do encenador no tabuleiro da semiologia, ao espatifar signos verbais e explorá-los como se fossem jazidas, entre os quais a marca Toddy e o neologismo “abracadobram-se”. Tem sido essa a toada de Hirsch em recentes expedições como “Língua Brasileira”. 

Para Suede, num tensionamento radical do quão mentirosa pode ser a imaginação da gente e do quanto a ideia de “real” pode ser apenas contingente, o resultado é uma viagem ao centro da sua terra mais profunda. De lá saem tubarões, evocações a Elvis Presley e uma atuação corajosa, balizada por um falar em ladainha, de risco, de rabisco, de ousadia.

Saiba mais sobre a peça!

Mais Notícias

Nossas Redes

2,459FansGostar
216SeguidoresSeguir
125InscritosInscrever
4.310 Seguidores
Seguir
- Publicidade -