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Agentes Muito Especiais é uma ‘Sessão da Tarde’ avessa à intolerância

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Pleitos inclusivos da contemporaneidade podem (e devem) ter imposto mudanças ao livro “A Personagem Homossexual no Cinema Brasileiro”, publicado em 2011, pelo mítico animador e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Antônio Moreno (1949-2021), mas não eliminaram sua relevância ao debater estereotipias. É provável que sua análise encontrasse um campo fértil de estudos em Agentes Muito Especiais, primeira promessa de blockbuster do audiovisual brasileiro em 2026.

Essa divertida comédia de ação abre fogo contra os “estereótipos de afetação” flagrados por Moreno ao dissecar a nossa História nas telas ao longo do século XX. A partir de “Augusto Aníbal Quer Casar” (1923), a identidade queer virou um tema. Aliás, alguns trataram dela com preconceito e alguns (sobretudo as chanchadas) se limitaram a padrões que, à luz de uma abordagem sem tato com a inclusão, viraram caricatas. 

Cabe a ressalva de que Agentes Muito Especiais nasceu de Paulo Gustavo (1978-2021) Daí vem a sua singularidade, não só no retrato de uma (plural) comunidade, mas na busca de aliados – prática relevante em um país homofóbico. É a partir da contribuição da estrela de Minha Mãe É Uma Peça (2013-2019) que brota um humor rasgado, mas afetuoso. 

Coautor do argumento inicial, Marcus Majella cruzou com Paulo Gustavo nos palcos e nas telas e extraiu da sinergia com o saudoso midas do riso uma escrachada exposição das hipocrisias nossas de cada dia. Pedroca Monteiro, por sua vez, atingiu uma manha marota para a crônica de costumes nos palcos. Os dois se unem à luz de uma estrutura de thriller, sem nunca abrir mão das reflexões sobre “sair do armário”, encarar intolerância, afirmar-se.

Pedro Antonio, o cineasta responsável pelo filme, se alia a Majella e Pedroca pavimentado por uma cinefilia Pop com ecos de “Sessão da Tarde” numa mistura de Um Tira da Pesada com Dois Supertiras em Miami sob uma ótica brasileiríssima. 

Seu filme é o irmão sul-americano do obrigatório “Cop Secret”, thriller queer islandês dirigido pelo jogador de futebol Hannes Þór Halldórsson, indicado ao Leopardo de Ouro de Locarno, em 2021. Lá, uma espécie de Dirty Harry europeu disfarça seus desejos por homens até cair de paixão por um colega. Juntos, o casal vai debelar o Mal com tiro e tapa na cara. 

A partir de um roteiro arquitetado por Fil Braz, sob a argamassa deixada por Paulo Gustavo e Majella, Agentes Muito Especiais, certamente, caminha por uma reta parecida com a de “Cop Secret”, só que com mais influências hollywoodianas. Lembra, sobretudo, a pérola Partners (“Dois Tiras Muito Suspeitos”, 1982), de James Burrows, com Ryan O’Neal (1941-2023) e John Hurt (1940-2017). Pedroca é um John Hurt nato, com seu jeitão Jacques Tati. Majella é mais O’Neal.

A gênese de Agentes Muito Especiais é a decisão do destemido investigador Jeff (Majella, hilário) de prestar exame para o Centro de Operações de Inteligência da Polícia (COIP), uma espécie de BOPE, o Batalhão de Operações Especiais, da Polícia Militar (PM) carioca, retratada em Tropa de Elite (Urso de Ouro de 2008). Em meio às provas, ele conhece o guarda Johnny (Pedroca), um funcionário público medroso e atrapalhado, que vive sob os cuidados da mãe (Malu Valli, em rápida, mas cativante atuação). 

Jeff peitou violências de ontem, de hoje e de sempre e “saiu do armário”. Já Johnny segue recatado, virgem, sem assumir sua orientação. Quando eles se encontram, há uma mudança mútua. Nasce ali uma reedição gaiata (e gay) dos heróis da animação Olho Vivo e Faro Fino, mas um desafio de alto risco espera por eles, numa narrativa que equilibra graça e adrenalina na edição de Zaga Martelletto.

Jeff e Johnny mal se conhecem e precisam encarar o temido Bando da Onça, quadrilha chefiada por uma misteriosa criminosa, vivida por Dira Paes, num desempenho preciso (e dos mais preciosos). No empenho de debelarem o império da Onça, sem “darem pinta” de que são policiais, Jeff e Johnny consolidam uma parceria profissional e pessoal, sequência a sequência, que assegura boas situações para rir. Pavimentam ainda discussões ricas sobre afirmação de identidades. 

O bandidão enamorado Dudu Azevedo (atorzaço que merece mais holofotes do que tem) é um dos achados do filme. O criminoso integra uma gangue das mais abiloladas formada por Juninho (Demétrio Nascimento), Mona (Big Jaum), Bola (Saulo Arcoverde) e Big (Saulo Segreto). Esse time é uma certeza de risadas num filme com coragem para integrar, fazer pensar, oferecer leveza.  

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