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‘Devora-me’ faz fotossíntese para desopilar nossas travas

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Electra que nos dê licença, com seu complexo, identificado na Psicologia numa conexão entre a força feminina e os vínculos paternos, mas Adélia Prado (hoje a maior poeta do país), ilumina mais o entendimento do que se vê na vertiginosa peça “Devora-me”. Escreve a mineira assim ó: “Numa ocasião, meu pai pintou a casa toda de alaranjado brilhante. Por muito tempo, moramos numa casa, como ele mesmo dizia, constantemente amanhecendo”. 

Devora-me

O amanhecer é a chave do que se vê no palco entre os Kosovskis: a filha Luiza, papai Ricardo e o irmão (da filha) Pedro, encenador. O rolê parte de “Rei Lear” (1606), o que dá a William Shakespeare (1564 – 1616), por usucapião da majestosidade na escrita, holofotes de peso. Mas como a operação dramatúrgica de Marcia Zanelatto (em seu texto mais simétrico… e mais lindo) gravita por um intimismo que o filão épico dos monarcas não hospeda, melhor ir por Adélia. A tese de sua poesia: “Qualquer infância é antiga”. Ai!

Seu livro mais recente, “O Jardim das Oliveiras” (lançado pela Editora Record), fala um bocado de mães, mas há lugar para pais (o tema de Lear e de Zanelatto) em suas páginas. Para começo de conversa há vez para o “pai maior”, no que ela escreve: “Deus dirá para mim, quando eu morrer: ‘Toma, filha, a Eternidade é sua'”. O Todo-Poderoso que entra em “Devora-me” é, no máximo, um resquício da ancestralidade judaica dos Kosovski. Mas não esqueça de que o Deus do povo judeu tem em Abraão – aquele que sobre a montanha para sacrificar o próprio filho – um herói.

O sacrifício de Abraão é mobilizado por amor, palavra que Lear desconhece (a princípio), mas que une bem Luiza e Ricardo, fora e dentro do palco, numa dinâmica cênica que é rito, é aula, é abraço e é abrigo. Sem contar que ele está hilariante numa farta parcela da encenação, e dribla o tédio nosso de todo dia com passes de Garricha, numa goleada em prol da graça.

Ela nos ajuda a passar pelo istmo que une o continente da culpa (a judaica, a cristã, a que for) e chegar na ilha de excelência teatral que é a obra de Shakespeare a partir de uma premissa. Um pai e uma filha querem montar um espetáculo. Têm como inspiração (ou melhor, como molde) o terrário, um recipiente onde ecossistemas compactos que pode ser criado em casa. Vemos uns em cena. Eles servem de metonímia (a parte pelo todo) e metáfora (um casulo, onde pai e filha se amalgamam).  

Um terrário é tipo uma jarra de vidro, com terra dentro, o que permite, no trânsito do oxigênio e do gás carbônico, via fotossíntese, a manutenção de plantas. O texto de Zanelatto (autora do colosso “Outras Marias”) é, em si, um terrário onde palavras desabrocham em signos e em segredos. Umas são puro desabafo (“Teatro é uma loucura”), algumas são constatações geométricas (“Desproporcional é a vida”), outras são algébricas (“Paixão é o adstringente do medo”) e há ainda profecias (“Tua verdade será teu dote”). 

Não importa o que é de Shakespeare e o que de Zanelatto. No terrário, tudo é lavoura. E na transparência do aquário vítreo, espelhado na dionisíaca cenografia de Beli Araújo e Lidia Kosovski por um círculo em cena, a colheita que brota primeiro é semeada por uma evocação a “Rei Lear”, no gesto do senhor da Bretanha em expulsar a filha, que era sua preferida, Cordélia.

Luiza se veste e se despe de si, indo e vindo de sua personagem, com relatos que soam biográficos, a debater a sina de Cordélia numa instância quase mítica, a fim de desnudar a permanência (impertinente) do patriarcado, como sendo um mal trágico. Em metástase. 

Numa atuação firme, na mecânica jogralesca da direção de Pedro Kosovski, ela tem seus traços de humor também, dos bons, sobretudo ao brincar com a ideia de um Enem para pais. Ricardo passou nesse exame, dada a conexão que se vê entre ele a colega de cena (e filha), num jogo de armar e desarmar que nos lembra que Teatro… aquele com T maiúsculo… que dá tesão… é processo, é descoberta, é ponto de partida sem ponto de chegada.

A poesia com P, qual a de Adélia Prado, é assim também. Por isso, lá de sua Divinópolis (MG), que fica longe do solo bretão de Lear…, ela lacra: “Coitada da menstruada, da que não pode falar na sinagoga e precisa de véus e leis para estar apenas calada”. Cordélia sabe isso bem, assim como muitas personagens de Zanelatto (vide sobretudo a peça “Diadorim”).

Esse saber se metamorfoseia em muitos caminhos (uns se fecham; uns tergiversam) na sólida arquitetura de “Devora-me”, mas esfinge alguma morde a mão dos Kosovski, nem a nossa. O que abocanha a nossa perplexidade é uma forma brasileiríssima (e muito afetuosa) de contar Lear e festejar o empoderamento de Cordélia.

Antes, quando se pensava em releituras de Lear, íamos para o “Ran” (1985), de Akira Kurosawa (1910-1998), ou para a monumental atuação de Walmor Chagas (1930-2013) em “Os Maias”, a minissérie de Luiz Fernando Carvalho. Hoje, Zanelatto está nessa genealogia, com os Kosovski.

Aliás, a iluminação ricochete de Lina Kaplan em “Devora-me”, (numa operação de Luz feita com destreza de Jiraya por Tayná Maciel) está com eles nessa instância de eficácia. Do ladinho dela entra a direção musical de Felipe Storino.Como os terrários em cena são luxo, magia, raio, estrela e luar, que se destaque a supervisão técnica de Giselle Falbo na criação deles. Cada vido em cena, ou exposto em vídeo, amplia a translucidez de um espetáculo que deslinda nossas travas. Em nome do pai… da filha… 

Saiba mais sobre a peça!

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