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Família de Aluguel: Brendan Fraser volta aos holofotes em filme sobre a solidão

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Phillip Vanderploeg é um ator estadunidense que encontrou, há 7 anos atrás, uma oportunidade de trabalho no Japão, e nunca mais retornou de lá. O que um dia pareceu promissor, tornou-se protocolar, e a vida de Phillip hoje é um amontoado de decepções, tanto profissionais quanto afetivas. Seu encontro com uma agência de empregos não tradicional parece atender às suas necessidade momentâneas, e ao que pede o mercado publicitário, aparentemente. O que Phillip não sabia é que essa nova agência precisa dele para um papel muito específico – ou vários. Trata-se de espaço de encontro para soluções de questões via aluguel: você precisa de um amigo, eles servem; você precisa de um casamento falso; é só pedir; existe a oportunidade de solucionar um problema burocrático, alugue um de seus atores para realizar o serviço, e está resolvido. Essa é a premissa de Família de Aluguel.

Duas carreiras ascendentes se encontram em Família de Aluguel. Uma é a de sua diretora, Hikari, que conseguiu um merecido punhado de prêmios há três anos, com o lançamento de uma das minisséries mais merecidamente festejadas da década, Treta. Foi nesse espaço de visibilidade que a cineasta japonesa conseguiu mostrar seu talento nos Estados Unidos após uma celebrada estreia, em 37 Segundos; com a minissérie, ela mostrou uma capacidade de aglutinar aspectos emocionais do relevo de um grupo de personagens, ao mesmo tempo em que engendra uma narrativa de intrincamento duplo, apresentando um painel macro do fim do sonho. A outra carreira é uma que está em processo de ressurreição bem sucedida, após a vitória no Oscar por A Baleia – Brendan Fraser. Para quem nunca tinha percebido seu talento antes do filme de Darren Aronofsky, aqui ele consegue mostrar, em um só tipo, um retorno à doçura pelo qual sua carreira é mais conhecida. 

O projeto que estreia agora nos cinemas têm inúmeras características que seriam encontradas em tradicionais produções que, outrora, capitanearam as temporadas de premiações. No entanto, Família de Aluguel se prepara para, praticamente, ser negado em todos os lugares que no passado o acolheriam, tais como o Oscar e o Globo de Ouro. A despeito do afeto que transborda de suas cenas, e do carisma inesgotável de seu elenco, talvez ao filme de Hikari falte urgência, um tema que converse com a contemporaneidade, e que hoje é um espaço que precisa ser ocupado não apenas pelo gracejo. Em outras palavras, talvez falte aqui o que sobrou em sua estreia estadunidense, ao qual não falta humanidade, mas cuja argamassa é formada também de ironia, política e alguma reflexão mais profunda sobre o hoje e os desdobramentos das relações humanas. 

Nada disso significa falta de profundidade no roteiro também escrito por Hikari, ao lado de Stephen Blahut. Como se fosse uma espécie de Encontros e Desencontros para jovens, Família de Aluguel também fala de falta de oportunidades em diversas ordens, desde a maneira como você se encaixa no mercado até a forma como cada um escolhe o recolhimento. A diretora provavelmente também é fã do Wim Wenders de Dias Perfeitos, outro filme sobre a solidão japonesa e as escolhas de cada indivíduo. O que traduz essa produção para plateias maiores talvez seja o que o dilui, mostrando um caráter universal enquanto unifica todas as questões em um olhar mais uniforme. O resultado é sim o filme acessível que se pretende, assim como também uma perda de relevância emocional que o diferencie de produtos mais genéricos que ele. 

A chave da extrema doçura adotada por Fraser afeta uma possível melancolia que o filme pudesse adquirir para provocar um estudo de personagem menos chapado; o que vemos é um homem que está aparentemente em paz com as ausências de sua vida. Ao seu redor, todos parecem pedir ajuda de inúmeras maneiras, algumas de forma explícita e outras sem jamais verbalizar. Essa característica de Família de Aluguel mostra que o grupo de personagens coadjuvantes soa quase sempre mais rico que o próprio protagonista, que em tese estaria em cena para absorver suas faltas. Não falta dramaticidade em Phillip, mas com certeza sobra observação diante do rumo das coisas, bem mais do que o personagem defenderia, a alguém que claramente agrega empatia pelos outros. 

Apesar dessa análise de aparência sisuda, exigente que eu agrego ao filme (a qualquer filme), não dá pra negar o prazer que é assistir Família de Aluguel, daquelas produções que assistimos com sorriso estampado e ininterrupto. A trajetória do ator que encontra sentido mentindo para um grupo de pessoas para que as vidas dos outros façam sentido, enquanto a sua nunca chega perto de fazê-lo é um filme para sorver com delicadeza, e que não batemos de frente todos os dias. Na verdade, a delicadeza aplicada em cena é um dom em viés de baixa no cinema, que atinge com frequência o acorde mais agudo na hora de contar suas histórias. Aqui, temos uma paisagem emocional em paisagem outonal, quando estamos prestes a embarcar em nova fase da jornada, seja preparando-se para a adolescência, encarando o outro lado da vida, ou renascendo na própria existência. 

O lamento maior vem de não conseguirmos adentrar com maior relevância no contorno de muitos personagens, como os colegas de escritório de Phillip, em especial a jovem atriz que ama o faz e o dono da agência, cuja história de vida caberia num filme particular. Família de Aluguel nos enleva com seu carinho explícito, mas mostra também a quantidade de histórias suprimidas que estão pedindo para serem dissecadas em cena, e o filme apenas as pincela. 

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