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“Job” pressuriza incertezas numa narrativa de tensão

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Pérola do tempo em que o thriller erótico foi um dos filões de maior lucratividade do cinemão, o hoje esquecido “Desejos” (“Final Analysis”, 1992), de Phil Joanou, partia de quatro elementos (uma mulher, um homem, uma violência e Freud), a fim de devassar hipocrisias que não têm voz nem em consultórios de psiquiatras, nem nas mais catárticas sessões de psicanálise. Aliás, seu procedimento, com Kim Basinger e Richard Gere como protagonistas, lá na década de 1990, conversa um pouco com o que o dramaturgo Max Wolf Friedlich põe em cena em “Job”.

Uma das estreias mais mobilizadoras do teatro brasileiro neste alvorecer de 2026, a montagem desse texto ganha holofotes midiáticos por levar aos palcos uma estrela de finos ferramentais cênicos que não se pasteurizou frente ao ramerrame global da TV: Bianca Bin. Parcialmente, o seu notável desempenho na telenovela “O Outro Lado do Paraíso” (2017), de Walcyr Carrasco, também centrado em armadilhas psiquiátricas, vem à tona em “Job”.

A peça é conduzida por Fernando Philbert numa variável de tons. Logo em sua encarrada, após o susto de uma ameaça à mão armada, rimos com a inconstância dos humores de Jane, a personagem de Bianca. Ela é uma especialista em filtrar conteúdo impróprio na internet, que um dia foi funcionária exemplar de uma grande empresa de tecnologia. Foi… até surtar. 

Após acumular vasta quilometragem de horrores digitais, em seu “job” como testemunha do ambiente tóxico das redes, ela sofre um colapso na firma. Além disso, carrega um discurso de que só irá regressar ao batente caso ganha um “induto” freudiano, ou seja, um laudo positivo de um analista, papel confiado a (um algébrico) Edson Fieschi. Certamente, cada (re)ação dele soa calculada.

Quando “Job” estreou nos EUA, em 2023, no Soho Playhouse de Nova York, a encenação era protagonizada por Sydney Lemmon e pelo incontinente Peter Friedman (o Frank Vernon da série “Succession”, antes conhecido por “Mulher Solteira Procura”, outro marco lá daquela era de “Desejos”). Ser um vulcão em erupção (em cena) é parte da dinâmica dessa ator, que tem modos de operação similares ao de Fieschi. 

Quem viu o ator brasileiro na (deliciosa) montagem de “A Garota do Adeus” (de 2012/13), em brilhante evocação de Richard Dreyfuss, ou na TV, como João Manuel, no folhetim “Meu Bem, Meu Mal” (1990-91), detecta os vulcões que fumegam a partir dele. O desafio aparente de um ator do calibre dele em “Job” é represar as incontinências à espera de trovões. 

Troveja no Teatro Total Energies (Sala Adolpho Bloch) no momento em que a talking cure (a terapia pela fala) entre o analista (Fieschi) e Jane (Bin) descamba para a agressividade, no ato de ela puxar uma arma. Até dado ponto, ficamos no relato de um aborto e de um ex-namorado (um tal de Sid) sem noção (e machista). Depois… ela força o psicanalista a abrir seus verbos… a rasgar as cortinas de sua vida particular. Aí… Malandro! Sai de baixo que vem desgraça.  

O que vem não tem filtro, mas tem um timbre tenso, que torna a peça um thriller, num clique de eficácia de Philbert, numa retomada de caminhos já explorados por ele antes (vide “Três Mulheres Altas”), só com mais pressão. A luz de Vilmar Olos, aplicada à cenografia de Natália Lana, pressuriza o palco a um limite de implosão. Mas o olhar vindicante de Jane, na atuação impecável de Bianca não implode. Assim como não implode também a viçosa engenharia plástica dos figurinos de Ronald Teixeira.

Saiba mais sobre a peça!

Rota Cult
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Redação do site E-mail: contato@rotacult.com.br

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