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‘Quando as Máquina Param’: A poesia alarmista do rendimento sobe ao palco

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Tem um diálogo na versão brasileira do sucesso de bilheteria “Tootsie” (1982), no qual Dustin Hoffman, dublado por Newton DaMatta, gargareja: “Eu não acredito no Diabo, eu acredito no desemprego”. Na língua de Plínio Marcos (1935-1999), o que falta ao ator sem trabalho vivido por Hoffman é “uma viração”. Quem tem “viração” (leia-se “trabalho”) não “tá no desvio” e “tem onde amarrar o cachorro”. Dá para tirar um dicionário de expressões garimpadas pelo Shakespeare da zona portuária santista, a julgar por peças como ‘Quando as Máquina Param’.

No recheio dessa guloseima, tostada sob a direção delicada do ator e professor de atuação Heitor Martinez, encontra-se um debate sobre “a sacanagem que é nascer pobre”. Tal conceito, que cai como iguaria ao paladar, na degustação da revisão (afetuosa) de um texto finalizado há 59 anos, desenha o perfil determinista que vai reger os personagens, defendidos com ardência dionisíaca por Bella Zafira e Pedro Di Carvalho. 

Em ‘Quando as Máquina Param’ baixa um “negócio” nesses dois em cena que faz correr um barravento pelas fileiras do Vanucci – numa batida de indignação. São intérpretes que deixam o corpo desenhar a transformação de suas personagens. Ele se arca, enfurna-se na derrota, encoleira-se no modo vira-lata. Ela se encrespa, alinha espinha, estica as angústias, entumece a vontade de reagir. 

As palavras de Plínio estão lá, em ricochete, sem que se altere um ditongo, um tritongo, um pronome pessoal do caso reto. Só que o olho da gente segue com a coreografia de um aikidô contra a miséria. Bella é Nina e Di Carvalho é Zé. Rimos com os dois. Choramos com os dois. Reprovamos ele. Contorcemo-nos com ela. 

Bom de bola, na vida e no palco, o flamenguista Heitor Martinez conduz, certamente, com retidão o placar para que a interpretação marque gols em prol da descoberta do que a dramaturgia dos anos 1960 tem de atemporal (e universal) em sua triagem de feridas que não criam casca. Celebrado por “Navalha na Carne” (1967) e “Dois Perdidos Numa Noite Suja” (1966), Plínio não falava em periferia, e, sim, em “quebradas do mundaréu”. 

Escreveu sobre garotas de programa que bebiam querosene e gente que roubava o “pisante” do colega. O erro e o delito, em seu naturalismo, eram carregados de uma empatia torta, que se traduzia em arrependimento, por parte de um povo que se define “maluco e perigoso”.  

A primeira vez que ele abriu pano na peça “Quando As Máquinas Param”, dirigindo Míriam Mehler e Luiz Gustavo, numa sala do TBC, em São Paulo, em 1967, o texto já arrastava uma história… de luta. O simbolismo de resistência – a dois – à opressão do capitalismo, que se vê na trama do autor de “Abajur Lilás”, foi idealizado por ele mesmo em 1963, com outro nome: “Enquanto os Navios Atracam”. Na época, a peça tinha um terceiro personagem: Seu Mané. 

Aliás, sua narrativa chegou a ser encenada há 63 anos, mas o dramaturgo depurou a escrita e reescreveu sua crônica sobre vidas à margem, eliminando Mané. Quase 60 anos depois dessa versão definitiva de Plínio nascer, Martinez tenta entender o quanto o casal Nina e Zé são pertinentes a uma geografia que não cabe no TikTok, nem aparece nos stremings.

Imortalizado no imaginário Pop carioca no verão de 1998, por seu desempenho no filme “Como Ser Solteiro”, e famoso por novelas de audiência bombada, Martinez reafirma suas destrezas artísticas, em ‘Quando as Máquina Param’, agora como encenador, tentando dar cor a um mundo assombrado por aquele tal Diabo lá de cima, o de “Tootsie”, que não paga boletos porque não pode. 

Em cena, Nina tenta segurar as pontas como costureira, enquanto Zé, operário desempregado, briga contra a angústia de ser descartado pelo sistema que o vê apenas como peça de uma engrenagem que parou. Traduzem, cada um a seu modo, os extremos do “heroísmo do rendimento”, uma corrente dramatúrgica bastante em voga na arte de hoje, sobretudo no cinema, vide filmes como “A Única Saída”, de Park Chan-wook.

Flagra-se essa veia naturalista no filmaço sul-coreano “Parasita” (Palma de Ouro de 2019), para citar um marco cinéfila, e ainda no recente espetáculo “Gente de Bem” (2023), inspirado em João Ximenes Braga. Foi um livro do século XIX, o “Germinal” (1885), de Émile Zola (1840-1905), que abriu a torneira dramatúrgica dessa vertente sociológica de tramas cuja jornada dos protagonistas se constrói a partir de estratégias de sobrevivência econômica. 

Cabem aí Chaplin e Rocky Balboa, com amplo espaço para personagens de Ken Loach, de Costa-Gavras e de Stéphane Brizé. Não é rara a associação desse procedimento temático às cartilhas marxistas de luta de classes. Associa-se ainda essa torrente criativa aos engenhos teóricos funcionalistas, nos quais a sociedade é vista em analogia a organismos biológicos. 

Nessa toada, há lugar ainda para aportes do naturalismo, uma corrente anfíbia da arte e das ciências sociais que representa territórios em analogia às entranhas dos corpos, com as suas escatologias e as suas dinâmicas de excreção. 

A casa que Zé não é capaz de custear, por não conseguir empreitadas, desenha-se no palco do Vanucci, por entre uma parede de lençóis e colchas presos com pregador, como se fosse uma garganta inflamada. É uma amígdala rouca, cheia de pus, onde a rouquidão silencia as juras de um amor e outrora que trocou o “pra sempre” do “fica comigo” pelo “agora” do desespero. 

Nina ainda ama. Protege o que tem (e o que virá). Já Zé… esse se quebra. Só vê o que o seu punho agarra, ou soca. Nem seu Corinthians amortece suas trombadas. A vida lhe “tirou o Pelé do campo”. Há pessoas de quem a vida tira a prazo. Dele, tiraram à vista. O que ficou poderia suprir toda a falta. Mas o verbo “amar” em Plínio, deixou de lado a conversa de que “existe o amor, é claro, e existe a vida, sua inimiga”. De um autor que grita “Deus é grande o escambau”, para dar voz à sua fauna de desesperados, o que sobra é alerta. Assim sendo, a encenação de “Quando As Máquinas Param” de Martinez nos alarma. Só não abre a mão da poesia.   

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