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Socorro! marca o retorno de Sam Raimi ao horror cômico

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Quando o fã de cinema de gênero declara felicidade pelo retorno de Sam Raimi aos cinemas, isso significa que ele considera que nada foi lançado após Arraste-me para o Inferno válido. Mas será acertado chamar Socorro! de horror, quando suas bases estão ligadas em outro lugar? Não é como se não houvesse qualquer elemento que apontasse esse caminho, mas sinto que Raimi queria também passar por esse lugar, porém sem restringimentos. Dito isso, é preciso informar que tudo o que vemos na tela a partir desta quinta, é como um delicioso passeio por um parque de diversões. A sensação de exaustão ao final é inegável, mas enquanto acontece a projeção o filme não cansa de divertir, e às vezes a montanha-russa só apresenta elementos novos. Na maior parte do tempo, isso é muito positivo. 

Na teoria, nós já vimos esse filme algumas vezes: duas pessoas que se odeiam caem em uma ilha deserta, e precisam conviver juntos – e ultrapassar suas mágoas, e lutar pela sobrevivência. O sabor nasce do que Raimi extrai dessa breve premissa, e a maneira como esse jogo é estabelecido, com as reviravoltas em esquema e nós, espectadores, tateando por lugares que já passeamos. O que fica claro em Socorro! é que, quando o talento entra em jogo, pouca coisa pode ser discutida. Mesmo em projetos aquém de seu talento (como Doutor Estranho no Multiverso da Loucura), Raimi fez a diferença e mostrou porque seu nome é subestimado na hora de conhecermos bem o trabalho de um autor. 

De aparência muito simples, Socorro! está para Raimi assim como A Visita esteve para M. Night Shyamalan: um exercício de estilo, concisão e diversão ininterrupta, ainda que na faixa de algum constrangimento coletivo. É um filme de proporções modestas mesmo, ainda que estrelado por dois astros, filmado em locação, com efeitos especiais e de maquiagem bem eficientes. A partir de uma premissa muito concentrada, que vai restringindo seu escopo exponencialmente avança alguma perversidade, Raimi vai jogando fichas em lugares pouco explorados pelo sistema de Hollywood, permitindo blocos de eventos que rompam, aqui e ali, com o que imagina e tirando o filme de uma rota segura. São os detalhes que transformam o grau de complexidade do que está sendo contado. 

Fora da aparência, Raimi reafirma seus predicados como diretor nesse filme com essa aparência menos opulenta – mas não se enganem, existe um trabalho de sofisticação evidente em Socorro!, que não se arvora dentro de um recorte mais tradicional de gênero. Existe nessa construção do roteiro de Damian Shannon e Mark Swift um espaço que permite inúmeras leituras possíveis: é um lugar do incômodo que mistura a violência com a comédia, o drama com o absurdo, e mais outras situações que se desenvolvem a cada nova esperada reviravolta. E aí, o que fica de análise é se essas reviravoltas são tão esperadas assim, se elas resvalam para lugares agudos e inesperados aqui e ali. 

Essa inteligência para lidar com o material, para desenvolver esse estudo de elo, que se amarra, desamarra e torna a se reconfigurar, é um dos prazeres de um filme que parece abraçar o máximo de caminhos possíveis. Precisa de um cineasta como Raimi para montar esse painel de clichês para um rumo onde essas pitadas agregam um sabor renovado ao que vemos. Essa sensação se dá desde o clímax inicial, um acidente que possibilita o roteiro a andar; além desse momento ter montagem impressionante e arte chamativa, ele define esse arco de Socorro!: a partir desse momento, o lugar comum desabrocha para alcançar os cantos mais arriscados para cada personagem em cena, que são desdobrados para muitos lados dentro de suas possibilidades. 

Unindo-se ao campo da realização, era necessário que o trabalho entre os protagonistas ampliasse a discussão, desde a apresentação dos mesmos até a interação sem limites entre eles, podendo caber muitas coisas nesse caldeirão. Rachel McAdams (indicada ao Oscar por Spotlight) e Dylan O’Brien (vencedor do prêmio de atuação em Sundance por Twinless) conseguem invadir os muitos lados de cada questão apresentada, e se conectam com o que Raimi desenha durante a projeção. O resultado é uma diversão apimentada e uma reflexão sobre as relações humanas, e nossa maneira de externalizar nossos próprios desejos; onde são colocadas nossas expectativas e sonhos? É melhor investigar esses lugares internos, antes que o retorno para a normalidade se torne impossível. Sem julgamentos. 

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