- Publicidade -

‘A Cuca’ mescla vídeo, dança e carnaval na micareta da ancestralidade

Publicado em:

Ao registrar a folia de Rei Momo numa mistura sem fronteira entre documentário e fábula, o filme “Amor, Carnaval e Sonhos” (1972), de Paulo Cezar Saraceni (1933-2012), atomizou signos (dos blocos cariocas) amalgamando observação e invenção numa matéria indistinta. No ano seguinte, o artista visual Arthur Omar radicalizou ainda mais esse amálgama, ao iniciar a série de experimentos que, em 1997, viria a se tornar o projeto “Antropologia da Face Gloriosa”, já exibido em galeria e celebrizado em livro da Cosac & Naify. “A Cuca”, hoje no palco, é uma nova etapa radical desse carro alegórico sociocultural da História, que agora toma as vias do teatro.  

Sozinho num palco que, por alguns minutos, vira a Sapucaí (em versão pocket) e vira ainda uma Amazônia em formato mignon, Renato Rocha constrói um ritual performático sob a bênção de Dionísio. Calça-se na fricção entre as ancestralidades do Brasil e a percepção universal da permanência (e sua gêmea, a finitude). O ponto de partida de sua gira é uma pergunta. 

Pelos idos da pandemia, quando era uma criança ainda em tempo de colo, de dentes de leite, a filha de Renato, Julieta, indagou o multiartista (respeitado por seus devires na direção): “Papai, quando eu crescer, o mundo ainda vai existir?”. Havia ali um gatilho.

Engatilhou-se uma inquietude: de que maneira o futuro ainda pode ser uma hipótese num período de medo, onde o mundo tosse e perde o ar? O módulo de tensão: depois que se é pai, o verbo morrer deixa de ser uma possibilidade, pois o amparo é um dever familiar. 

Esgueirando-se por diferentes vértices criativos em “A Cuca” (da dramaturgia à encenação, nas raias de uma atuação performática vívida), Renato Rocha dá conta da curiosidade de Julieta num rito de antropomorfismo. Vira jacaré (ou jacaroa) para buscar sua essência de gente.  

Usa figurinos com feições de réptil, mas faz da iluminação Paulo Denizot, combinada ao videografismo de Plínio Hit e Breno Buswell, uma armadura extra, para escudar-se do mundano e talhar um caminho até a transcendência. Sob a luz que quica selvagem nos olhos da plateia, ele transcende pelas vias da floresta. Vai à toca de uma mulher que é ente, que é bicho, que é orixá, que é profecia, que é caminho. 

Reconhecida por folcloristas como uma bruxa aterrorizante de cantigas de ninar, Cuca já foi Global, ao dar pinta no Plim-Plim do império Roberto Marinho no “Sítio do Pica Pau Amarelo”. Teve ainda lugar na Netflix, na série de Carlos Saldanha “Cidade Invisível”. 

Na travessia antropológica e histórica de Renato Rocha no Futuros, a Cuca que lhe interessa não é vilã, e, sim, guardiã. É um Visage, termo usado para definir entidades ancestrais presentes em povos indígenas, invocadas em rituais de transmissão de saber e memória. A forma de jacaré é só um significante. O significado é o verde… o perene… o infinito. Tudo o que o performer deseja (de bom) para sua Julieta. 

Com uma trilha sonora pontuada de músicas de Daniel Castanheira e Felipe Habibi, “A Cuca” não dispensa palavras. A certo momento, o pai diz para Julieta: “eu precisei ser chão para que você pudesse ter casa”. Tal fala vale o ingresso, somada a um jorro potente de reflexões sobre o aprendizado que homens como Renato têm com as mulheres. Daí a dimensão de denúncia (mais do que bem-vinda) da peça contra o feminicídio, contra violências de gênero.A Cuca tá de olho. E o espetáculo que a celebra é vivo.

Saiba mais sobre a peça!

Mais Notícias

Comentários

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here

Nossas Redes

2,459FansGostar
216SeguidoresSeguir
125InscritosInscrever
4.310 Seguidores
Seguir
- Publicidade -