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A História do Som: Oliver Hermanus aborda as imperfeições do relacionamento humano

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O amor, essencialmente, é um sentimento ou conjunto de sensações que geram tal, que, para ser tratado como genuíno, precisa de algum grau de altruísmo de quem o sente. Qualquer coisa que necessite de outro ser para existir, não pode ser encarado da maneira pura com que o amor deveria nascer. Já para o sentimento ser consumado (e eventualmente florescer), aí sim existiria a necessidade da reciprocidade, mas o amor pode sim sobreviver ao tempo, ao espaço e mesmo ao abandono. Em torno de questões mais complexas com alguma profundidade, mas que geralmente não são debatidas pelo cinema, é que se alicerça A História do Som, e a bem da verdade, nem mesmo aqui essa discussão se concretiza, mas está nas entrelinhas toda essa aspiração emocional. 

Oliver Hermanus é um diretor sul-africano já notado anteriormente, em longas onde o gesto já tinha papel preponderante; falamos de MoffieBeleza Arrebatadora e seu mais recente Viver, bem sucedido remake de um original de Akira Kurosawa. Entenda, não estamos falando de relações táteis (embora sim, a valorização do toque no filme seja evidente), mas de uma construção gestual coletiva que permite essa observação detalhada – e detalhista. A acusação de espetáculo tépido por parte de alguns espectadores esconde uma dificuldade de embarcar no que está se desenvolvendo em cena, que é essa constante investigação do que é crucial no outro. A palavra ou a ação, os olhos ou as mãos, as perguntas ou as respostas; A História do Som busca o que não é dito, não é mostrado, muitas vezes têm suas demonstrações abafadas, para evidenciar a fuga. 

A comparação mais óbvia seria com a obra-prima clássica revisionista de Ang Lee, Brokeback Mountain, mas apesar dos inúmeros gatilhos salpicados pela narrativa que podem remeter dois títulos de sensibilidade à flor da pele, o filme de Hermanus se vale ainda mais pela ausência. Já que efetivamente trata-se de uma obra que prima pelo vazio provocado pela covardia e pela aceitação da mesma, todo o fino bordado de minúcias é exacerbado pela constância da percepção do som, e as tentativas vãs de capturar o instante. Isso está no ponto de partida do reencontro entre David e Lionel ao gravar de maneira artesanal os registros musicais dos povos mais recônditos da América do Norte, que precisa ser catalogado também pelo lapso de memória que se estabelece entre os protagonistas, e na mediação visual do espectador. 

É um trabalho completo do trio formado por Hermanus, Paul Mescal (que deveria ter sido indicado ao Oscar por Hamnet, ou aqui) e Josh O’Connor (que deveria ter sido indicado ao Oscar por The Mastermind, ou aqui). Cada detalhe importa: é a virada de cabeça de Lionel ao ouvir os primeiros acordes no bar, é a maneira como ambos olham para o nada em determinadas situações, mais uma vez em fuga, são as labaredas implícitas que saltam do copo d’água dividido, ou a companhia ao piano que transforma-se em dor futuro no chão da mansão. A História do Som se abstém do verbo para apostar no que está do outro lado do olhar, bichos prontos a se devorar, mas que o filme escolhe os momentos exatamente antes ou depois dos saltos dos animais. 

Todo esse conjunto de possibilidades abortadas vão criando uma ciranda caudalosa de desacontecimentos, e de oportunidades perdidas. São especulações criadas na própria imaginação que perpetuam o erro, e libertam o comodismo a agir. Com um trabalho fotográfico cheio de camadas, o que A História do Som imprime em tela são essas imperfeições de relação, que na aceitação da falta de diálogo, cristaliza esse erro para torná-lo verdade errônea. É um trabalho que não busca a imensidão dos espaços para ratificar a grandeza do amor, mas o oposto: ao perceber no micro as tentativas constantes de procurar a infelicidade, o filme concretiza tais segredos como parte integrante da relação. O que se traveste de mistério, e permanece em triste constatação do subterrâneo, é podado de suas possibilidades infinitas; seria melhor não ter te conhecido?, pensa Lionel. E o filme concretiza o pensamento, para logo em seguida mostrar que a beleza do encontro será eterna. 

A História do Som, assim como em tantas histórias de homens comuns que se esbarram em estações de metrô ou padarias ou em ruas movimentadas, é mais um conto sobre escolhas erradas. Ao contrário do que Vinícius de Moraes escreveu, é muito mais confortável ser triste do que ser alegre, e viver a vida que se acha feliz, ainda que todos os erros já tenham sido percebidos. David e Lionel têm, juntos, um brilho fugaz irradiado não pela paixão furiosa, mas pelo pertencimento. A paixão existe e é parcimoniosamente revelada pelas imagens elegantes de Hermanus, mas está arraigado na pele deles o estado mais intrínseco de encontrar no outro o fim de todas as dúvidas, de sentir que aquele braço lhe pertence, que aquela pele lhe faz jus, que aquele olhar que invade o espaço agora tem reflexo. No outro. 

E pertencer um ao outro é algo que nem todas as vidas, nem todos os tempos podem roubar. David e Lionel tem algo de convicto que não precisa ser narrado, de que sua história será vivida pela duração que for, mas que não sairá da pele que seu diretor tão habilmente filma. Pertencer. Tão rara é a certeza de que os olhos estão paralelos nas mesmas intenções, desejando além de um ao outro, e também descobrindo juntos motivações, aspirações e um futuro que não precisaria do agora para decidir. A História do Som mostra que bem mais dilacerante que o abandono, só mesmo a dor de não compreender o destino caprichoso; se o amor é mútuo, tudo está resolvido, não é mesmo? O ser humano e sua eterna incapacidade de montar o cavalo selado passando na sua frente. A melancolia de perceber que pouco pode ser feito, dentro ou fora da tela. 

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