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Me Ame Com Ternura: Um filme sobre alienação parental

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A França tem apresentado, com alguma frequência, dramas contemporâneos sobre a situação feminina no mercado de trabalho e em como suas relações humanas acabam por mover tais situações, como uma montanha russa de eventos. Contratempos Uma Mulher do Mundo lidam com o estigma da personagem que, nem com todo o esforço, consegue sair da máquina de moer gente e acaba por sucumbir a realidades adversas aos seus desejos. Me Ame com Ternura lida com a contemporaneidade do universo feminino a expandir-se para além do trabalho, mas em idade comum a outros longas. Porque ao homem é dado todos os direitos, inclusive o da reinvenção, e as mulheres ainda precisam da aprovação social para quem sabe conseguir um lugar entre os que podem sonhar, e amar. 

Clémence é uma advogada, divorciada, que tem uma relação amigável com seu ex-marido, com o qual divide a guarda compartilhada de seu filho pequeno. Quando Me Ame com Ternura começa, logo na primeira cena. Clémence se vê encantada por outra mulher enquanto tem aulas de natação; realiza então seu desejo. E aos poucos, sente que isso é uma nova realidade para si. Imaginando-se desabafar com um amigo, revela sua liberdade para o ex-marido, que tenta seduzi-la de imediato. Ao não ceder a esse impulso, Clémence vê sua vida tornar-se um inferno. Esse é o ponto de partida de um filme que, por meio naturalistas, transforma a vida de sua protagonista em um festival de horrores cotidianos, pior do que faria um mestre do terror. Porque tudo o que acontece com Clémence, de maneira factual e emocional, é uma realidade para muitas mulheres. 

Esse é o segundo filme dirigido por Anna Cazenave Cambet, que empreende um filme claustrofóbico na certeza que o mesmo tem de promover sufocamento a uma protagonista de altivez inegável. A forma como as situações são desenhadas, sem dar espaço para tempos mortos e organizando as ações de maneira em que a progressão só nos permite perder o fôlego, monta um filme onde a respiração é constantemente afetada pelo excesso de eventos. Com destreza, o filme não se encerra em um lugar trágico ou de culpabilização LGBTQIAPN+ ou mesmo em um clima de tortura que outros autores poderiam incorrer, mas em um torpor esgarçado que vai transformando os eventos futuros em situações cansadas, criando em sua personagem principal iguais sentidos. 

A parceria na construção dessa via crucis entre autora e atriz talvez seja a principal camada de Me Ame com Ternura, e não estamos falando de qualquer atriz, mas de Vicky Krieps. Surgida arrebatadora em Trama Fantasma, ela brilhou em filmes tão diferentes quanto TempoCorsage Hot Milk. O que ela realiza aqui, no entanto, é para reconfigurar toda uma carreira, e dimensionar tudo o que foi estabelecido até então para um novo tempo. São 15 anos desde sua primeira aparição no cinema, mas Me Ame com Ternura, e aqui tudo que conhecemos a seu respeito atinge um outro lugar. Sutil, é uma interpretação naturalista que choca o espectador pela coragem de investigar tais recursos. 

Essa capacidade de alcançar notas tão altas em compartimentos mínimos é uma característica de uma atriz excepcional, que realça as qualidades do roteiro, através das outras relações que ela carrega. Seja com o ex-marido (vivido por Antoine Reinartz, de Anatomia de uma Queda), a namorada (Monia Chokri, de A Natureza do Amor), seu pai (Féodor Atkine, do clássico Pauline na Praia) ou principalmente o pequeno Viggo Ferreira-Redier, que faz seu filho e emociona com reações sempre conflitantes. O filme alcança também seu auge sem a constatação de violência explícita em seu discurso, graças a essa escalação afiada. São essas dinâmicas, que moldam o jogo entre o que é praticado e o que é sentido, que move tal atmosfera para um quadro insustentável. 

A maneira agridoce com que tudo é moldado na narrativa pode mostrar verdades duras demais, mas a coragem com que Me Ame com Ternura aborda a gradativa perda da mais pura história de amor possível entre dois elementos familiares, é outro dos campos de ousadia do filme. Não se imagina que o desfecho do filme fosse cercado desse vazio absoluto, e que dentro dele conseguiria extrair-se algo da espécie de compreensão, e até aceitação. Ao mesmo tempo em que tenta criar uma nova página naquelas trajetórias, o que vemos é uma crueldade que parece difícil de superar, mas que o filme tem coragem de abordar com a delicadeza de quem entende o horror, e infelizmente é obrigado a se acostumar com ele. Corajoso de uma maneira quase inacreditável. 

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