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“Aonde eu queria estar”, de Marjô Mizumoto, na Galeria Anita Schwartz

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A Galeria Anita Schwartz inaugura exposição “Aonde eu queria estar”, de Marjô Mizumoto. A mostra reúne dez pinturas em grande formato (om telas que chegam a 2,5 metros de altura), e marca o primeiro solo da artista paulistana no Rio de Janeiro.

Formado majoritariamente por trabalhos inéditos concebidos para a individual o conjunto apresenta cenas do cotidiano doméstico, encontros familiares e momentos de lazer que, na pintura de Marjô Mizumoto, ganham densidade emocional e força visual. São imagens construídas a partir de fotografias do dia a dia, reorganizadas em composições que suspendem o tempo e transformam o banal em matéria pictórica.

Aliás, as pinturas operam a partir de uma contenção do tempo. Ele não avança, se concentra. Pequenos gestos, situações corriqueiras e encontros íntimos são deslocados de sua função cotidiana e passam a ocupar o centro da cena, acentuados por escolhas cromáticas, enquadramentos e elementos simbólicos que ampliam seus sentidos. O resultado são imagens que parecem familiares à primeira vista, mas que, pouco a pouco, instauram um leve estranhamento e convidam o olhar a permanecer.

As cenas não se fecham em um único significado. Sugerem o que veio antes e o que pode vir depois, ativando a memória e a experiência do espectador. Ao reunir referências de diferentes tempos, como infância, vida adulta, memórias pessoais e imagens coletivas, a artista cria composições em que passado e presente coexistem no mesmo plano.

A curadora Vanda Klabin, que assina o texto de apresentação da mostra, destaca que Mizumoto “manipula a linguagem imagética, fortemente figurativa, por meio de dispositivos narrativos, direcionando o olhar para o universo de fragmentos do cotidiano doméstico atuantes em sua órbita poética”. Para Vanda, a artista parte de imagens reconhecíveis da vida comum que, “ao serem inflamadas por uma iconografia pulsante, fazem com que acontecimentos banais ou efêmeros adquiram uma densidade visual inesperada, por vezes tornando estranhas representações outrora familiares”.

A pintura é, certamente, o território central de Marjô Mizumoto, formada em Artes Plásticas pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), desde o início de sua trajetória, em 2008. Ao longo de quase duas décadas de percurso, um eixo permanece constante: o interesse pelas relações humanas. “O que sempre ficou no meu trabalho são as relações. Eu sinto que é algo silencioso, mas uma das coisas mais importantes da vida”, afirma. Se antes sua atenção recaía mais sobre o indivíduo isolado, hoje o foco se desloca para aquilo que acontece entre as pessoas, como o cuidado, a convivência e o tempo compartilhado.

Esse deslocamento se intensifica após a experiência da maternidade, que passa a atravessar de forma decisiva a sua pesquisa pictórica. “Eu comecei a entender minha pintura muito mais a partir das relações do que do indivíduo em si. Aprendi a cuidar e meu olhar foi para esse lugar do cuidado”, comenta a artista. Mesmo quando retrata uma única figura, a cena sugere uma presença fora do quadro, como se o observador também estivesse implicado naquele momento.

Nesse contexto, Aonde eu queria estar pode ser lida a partir de um deslocamento crítico da representação da maternidade. Em vez de reiterar a mulher como figura central e naturalizada do cuidado, Mizumoto redistribui esse papel dentro da cena. Em algumas pinturas, a figura masculina assume gestos de atenção e cuidado doméstico, presença ainda rara na história da arte. Ao mesmo tempo, a artista se ausenta como personagem para ocupar o lugar de quem observa e registra, influenciada por uma memória forte familiar: “Meu pai nunca aparecia nas fotos porque era ele quem fotografava”, relembra. Ao assumir esse ponto de vista, Marjô desloca a maternidade de um lugar idealizado e afirma a possibilidade de a mulher se retirar da cena para existir como olhar e autoria.

Esse gesto de afastamento como personagem se desdobra diretamente no modo como a artista constrói suas imagens. O processo de trabalho envolve a combinação de múltiplas imagens e referências afetivas, reunidas em uma única cena. “Eu tiro muitas fotos durante o dia e depois construo a pintura a partir delas. Não é a reprodução da foto, é uma cena construída, quase como um frame de um filme”, explica Marjô. Essa operação cria um campo aberto à projeção do espectador, que frequentemente reconhece nas imagens fragmentos de sua própria memória.

Segundo Vanda Klabin, “ao remover imagens de sua natureza cotidiana e ampliar seus sentidos por meio de uma narrativa parcial, Marjô interrompe o fluir do tempo e redireciona o observador para novos eixos de leitura e significado”. Nesse processo, o trivial torna-se objeto de investigação plástica e as cenas deixam de ser fugazes para se consolidarem como composições visuais autônomas.

A dimensão relacional atravessa também a escala das obras. Executadas em grandes formatos, as pinturas ampliam a intimidade da cena e a projetam no espaço expositivo, criando uma relação de proximidade física com o público. O que poderia permanecer restrito ao âmbito privado, como a casa, a família, o descanso e a infância, ganha dimensão pública e simbólica.

As obras reunidas abordam infância, vida familiar, lazer e trabalho, combinando humor, delicadeza e tensão. Para a artista, a pintura também carrega uma dimensão de permanência: “Eu sinto que a pintura tem esse momento de eternizar. É uma forma de manter vivo um instante que, na vida, passaria muito rápido”.

SERVIÇO:
Abertura: 04 de março de 2026, às 19h / Encerramento:18 de abril de 2026 / Anita Schwartz Galeria de Arte R. José Roberto Macedo Soares, 30 – Gávea

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Redação do site E-mail: contato@rotacult.com.br

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