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Assassinato de Edson Luís no regime militar é investigado em “EDSON”

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Encenando um monólogo pela primeira vez e se auto-dirigindo, Matheus Macena interroga o fenômeno da tragédia brasileira e suas repetições históricas. O solo inédito “Edson” se apresenta ao público como uma obra onde duas correntes dramatúrgicas se chocam. No espetáculo escrito, dirigido e interpretado por Matheus, o diretor musical e guitarrista Pedro Nego costura melodicamente a cena, onde os vestígios da factual morte de Edson Luís de Lima Souto, jovem estudante secundarista assassinado pela ditadura militar em março de 1968, enfrentam possíveis ficções do que poderia ter sido a vida da família Lima Souto e de Edson Luís.

“O projeto começou com um dia após o assassinato da vereadora Marielle Franco. Percebi que esses dois assassinatos, tão importantes para a história nacional, eram separados por exatos 50 anos -Marielle em março de 2018 e Edson em março de 1968. E esse espelho temporal tão evidente só comprovava pra mim a força do retorno dos ideais de extrema direita. Então, a necessidade de contar a perspectiva e história do Edson era urgente, porque é recontando o passado que formulamos um futuro. E é inegável que, conforme eu mergulhava na história desse jovem de 17 anos, mais claras ficavam as similaridades das nossas narrativas. A peça é um espelho do passado”, pontua Macena, acredita que este trabalho seja uma espécie de rito de passagem para seu amadurecimento profissional.

O epicentro da criação é a história nacional. Porém, o esforço e desejo artístico, em questão, intentam a possibilidade de contar a memória brasileira sem ter a colonização, ou a censura, como marco protagonista. No espetáculo, Pai, Mãe, Irmã e Edson criam um espelho alegórico que redime toda e qualquer família brasileira. Os quatro personagens recontam o panorama político durante a ditadura, não a partir da militância ou da classe média escolarizada, mas, sim, fundado na perspectiva do trabalhador de base, no ângulo do analfabetismo e do ponto de vista do emigrante nordestino e nortista.

“É inadmissível que a história do jovem assassinado pela ditadura militar e que se tornou o pivô da histórica Passeata dos Cem Mil, permaneça sem ser contada. Quando Edson é assassinado, para além da censura institucional que as notícias de sua morte sofreram, sua narrativa também foi apagada pela sistemática e estrutural opressão que um jovem migrante sofre. Ao lutar contra o próprio analfabetismo, ao morar na rua e ao nascer filho de trabalhadores de base. O super objetivo desse espetáculo é contar o período do regime militar brasileiro, mas a partir da perspectiva do trabalhador de base, do analfabetismo, do trabalhador rural”, adianta Matheus.

Para o ator, outros conhecidos assassinatos do período de regime militar, como Rubens PaivaVladmir Herzog e Stuart Angel, são tão trágicos quanto a morte de Edson. Mas em seu primeiro monólogo, o multiartista optou por reiterar o recorte social, étnico e regional de Edson Luís para revelar novos ângulos. “Edson morou na rua, fez faxina e morou no restaurante acadêmico Calabouço, no Centro do Rio. Foi assassinado numa manifestação na qual a reivindicação era a comida dos estudantes. Para mim precisamos elevar a discussão acerca da representatividade. Não basta apenas ver corpos semelhantes aos meus na televisão, no cinema e no teatro. O próximo passo para a representatividade é a complexidade emocional. Apenas assim restabeleceremos o principal fator que é retirado dos personagens negros e indígenas: a humanidade”, conclui.

Driblando o apagamento de histórico do assassinato do jovem que definiu a passeata dos Cem Mil e logo em seguida a proclamação do Ato Institucional nº 5, “Edson” analisa e verifica a história da família Lima Souto desde a saída de Belém do Pará até morte do jovem no Rio de Janeiro. No caminho narrativo, a obra tem como meta criar a oportunidade de fabular, de tomar este conto documental como reflexo de cada família brasileira. 

“Conforme o processo artístico caminhava, notei que a justiça dos fatos não era suficiente. Era necessário fabular. Afinal, para um espetáculo teatral é através da poesia que se descobre dignidade. E creio que esses são os pilares da dramaturgia: justiça para os fatos e poesia para dignidade”, pondera Matheus, que mergulhou por meses num processo de arquivologia na Biblioteca Nacional, debruçando-se sobre jornais de época, notas de rodapé e reportagens censuradas, montando, assim, um mosaico que deu a Edson uma narrativa justa. 

“Ao longo de minha carreira fui beber na dança com a Lia Rodrigues, no musical com o Michel Melamed, nas artes visuais com o Bob Wilson… Mas acredito que foi no meu trabalho continuado com a Aquela Cia. que descobri uma linguagem autoral, minha e independente. Essa profusão e mistura de gêneros e linguagens teatrais formou uma espécie de quimera que é o ‘Edson’. O trabalho é muito físico, tem dança, tem canto, tem performance – e até circo, também. E vou ser honesto, estou me cuidando muito para encarar o desafio, mas sei que o que me mantém em cena é a missão de dar ao Edson, que foi uma pessoa real, a decência e a nobreza da contação de uma história que seja bela”, finaliza o realizador. 

SERVIÇO Temporada: 03 a 26 de abril de 2026 Ingressos:  https://bileto.sympla.com.br / Local: Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto Endereço: Rua Humaitá, 163 – Humaitá / Classificação Indicativa: 16 anos

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Redação do site E-mail: contato@rotacult.com.br

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