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‘Coração na Boca’ é uma celebração semiológica (e lúdica) de Jean-Luc Godard

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Num dado momento da encenação de “No Coração na Boca”, num descolamento entre o que é a ficção e o que é vivência real, a atriz Priscilla Rozembaum e o ator José Karini questionam por que raios o filme “Pierrot Le Fou” (1965) – base da dramaturgia ali encenada – foi intitulado no Brasil como “O Demônio das Onze Horas”. Há a hipótese de que funcionários do departamento de Censura, no governo (já militar) da época, optou por uma menção a uma expressão (à moda paulistana), hoje esquecida, do tédio burguês. Um jargão da época sugeria que, às 11h, na rotina do dia a dia, batia um vazio nas metrópoles, fosse o RJ, fosse Paris. 

Especula-se ainda que o nome seja uma referência a uma frase do livro “Obsession” (1962), de Lionel White (1905-1985), usado como alicerce do roteiro filmado por Godard com Anna Karina 1940-2019) e Jean-Paul Belmondo (1933-2021). O mote do diretor: “contar a história do último casal romântico”.  

Especialistas francófonos em Godard, da revista “Cahiers du Cinéma” até hoje se debatem sobre a escolha, em português, de “O Demônio das Onze Horas”. Sabe-se, com certeza, de que as versões de título, entre nós, rendem piadas e pérolas. Afinal, o uso mesóclise em “Ver-te-ei no Inferno” – o nome por aqui do drama “The Molly Maguires”, de 1970, com Sean Connery e Richard Harris – coroa uma tradição de dar “brasilidade” aos nomes originais, como é o caso (dos mais pleonástico) de “O Galinho Chicken Little” (2005). Mas, sejamos justos: a mudança de “Bloodsport” (1987) para “O Grande Dragão Branco”, na fase áurea de porrada de Jean-Claude Van Damme, foi um achado. Erramos muito, mas já metemos gol.    

Miudezas e cinefilias à parte sobre títulos, existe uma peça. Uma peça que sabe ser romântica e engraçada, sem perder de foco a essência do longa-metragem que a inspirou e do realizador que seu texto e que de forma singular, homenageia: Jean-Luc Godard (1930-2022). Leonardo Da Vinci do cinema de autor, ele deixou o storytelling de lado e abraçou a semiologia, separando langue de parole e “Ação!” de submissão.   

No império do efêmero que o mundo midiático virou, sob o garrote das fake News, o cineasta franco-suíço foi responsável por injetar poesia na semiótica. Saiu de cena pela ribalta da serenidade, deixando como legado cerca de 120 filmes (entre curtas e longas) e 12 produções para a TV (entre séries e especiais), numa obra eternizada a partir de “Acossado” (“À Bout De Souffle”, 1960) como um farol revolucionário. Este longa coroado na Berlinale também instiga a dinâmica de Rozenbaum e Karini, na criação dramatúrgica feita a seis mãos com o encenador Felipe Vidal. 

Logo começaram os ensaios dos três, estreou no Rio “Nouvelle Vague”, biopic em P&B que o americano Richard Linklater (de “Boyhood”) fez a partir dos meses em que o moleque Godard, então um crítico de cinema, resolveu filmar seu primeiro longa, nos anos 1950. Fez “Acossado” para não se deixado para trás pelos seus chapas de geração (e colegas de escrita) Claude Chabrol (1930-2010) e François Truffaut (1932-1984). 

O filme de Linklater, indicado à Palma de Ouro de Cannes, faz um balanço do movimento, a Nova Onda, que essa turma criou, ao propor que cada longa fosse, em si, um instrumento revolucionário. Uma revolução na forma e no conteúdo. Uma revolução na emissão e na recepção.

Linklater parte dessa tal “Nova Vaga” para entender os vetores (sentimentais e políticos) que geraram um ferrabrás com Godard. Rozenbaum, Karini e Vidal se preocupam menos com ele, mas sim como sua abordagem semiológica modulou o ideal por trás do verbo “amar” de toda uma geração, redirecionando modos de ser e de estar. Seus filmes inspiraram formas de vestir, formas de agir (numa não acomodação ao discurso fílmico hegemônico) e formas de querer. 

Só não há como negar, em seu “O Demônio das Onze Horas”, a centelha lírica por trás de sequência embalada a “Ma Ligne de Chance” (canção do persa Serge Rezvani). Ela redefine ludicamente uma narrativa que troca a lógica narrativa do cinema francês por rizomas. Godard queria uma equação, algo quase matemático, que espatifasse o logos de uma love story num contexto de gângsters. Teve êxito parcial ao ver o longa preservar a dimensão de afetuosidade. 

Rozembaum e Karini se apegam a ela ao viverem um casal de 60 anos que se inspira nas figuras de “Pierrot le Fou” a fim de entenderem o gostar, a solidão, suas escolhas de antes, seus amores de ontem e o próprio Godard. Assim, numa geometria abertas a curvas e fractais, o casal ficcional chamado Marianne e Ferdinand (como Anna Karina e Belmondo), aos 30 anos, mistura-se aos que seus atores (Priscilla Rozenbaum e José Karini), ambos na casa dos 60, e se mesclam a cogito nada cartesiano do Godard.

Pavimentados pela direção de movimento de Maria Alice Poppe, Rozenbaum e Karini se vestem e se despem de cinema assim como se vestem e se despem do que são em suas vidas. Fato e filme se misturam numa linha semiológica que investiga o que o teatro pode acrescentar no legado godardiano de fabricar esfinges do agora e decifrar as esfinges do passado. 

Estimativas históricas de instituições como a Unifrance e de veículos de mídia como a “Cahiers du Cinéma” apontam que “Acossado” teve custo estimado em 400 mil francos (o equivalente a US$ 80 mil) e vendeu 2.295.912 ingressos só na França, a partir de 16 de março de 1960. O Urso de Prata de Melhor Direção que ganhou no Festival de Berlim foi um chamariz de público. 

Já “O Demônio das Onze Horas” custou US$ 300 mil e vendeu 1.310.579 bilhetes. Muita gente não entendeu o que Godard inventou, usando a Filosofia como eixo para a construção de planos. A relevância de “Coração na Boca” é abrir um novo front de entendimento, um pouco como fez Armando Freitas Filho (1940-2024) ao dedicar ao inquieto cineasta um poema, “Riviera”, publico no livro “Lar'”, que diz: “Acossado, no subsolo, pelo gesto gratuito/ preso na cadeira durante duas sessões/ sob o pulso entrecortado do crime e do amor/ livre, errático, debaixo do lençol/ e da morte, disparada na rua:/ Traído! Denunciado! Entregue!”

Para sempre Godard!

Serviço: Temporada De 13 até 26 de março / Loca: CCBB RJ – Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro

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