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Hora do Recreio: Lucia Murat mistura documentário e encenação ficcional para falar sobre temas paralelos à educação básica no Brasil

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Que Lúcia Murat é uma das diretoras mais proeminentes do cinema brasileiro, com uma carreira não apenas ativa e pulsante, como relevante há 40 anos, isso não se discute. Aos 77 anos, Murat lança o seu filme mais impressionante em 15 anos – Hora do Recreio é uma experiência enriquecedora do ponto de vista do documentário, como a cineasta não entregava desde Uma Longa Viagem, filme que fez dela a grande (e merecida) vencedora do Festival de Gramado de 2011. Ainda que o filme encontre um entrave efetivo em seus últimos minutos, grande parte do que vemos aqui é um mergulho corajoso em torno não apenas do olhar sobre a educação no Brasil nos dias de hoje, de tudo que ela demanda em sua entrega final e de como a palavra vai além do que ocorre na expressão maiúscula do termo. O dia a dia da educação, esse sim, é o que impacta cada indivíduo em sua formação coletiva, acadêmica e emocional. 

Em busca desse recorte inicial, e contando com inúmeros agentes externos, Murat organiza um filme que eleva suas curvas. Hora do Recreio parte da tentativa da autora em ouvir jovens estudantes sobre suas realidades e as ausências que todos em cena podem defender. Existem não apenas muitas narrativas em cena, sendo narradas e mostrando suas particularidades em meio a um conceito de educação que perdeu sua validade em preocupações paralelas reais. Sem jamais defender (dentro do filme ou dentro da análise), o Estado é igualmente causa e efeito, ao mesmo tempo em que não consegue promover nada além de horror em cena, esse também é um dos principais movimentos da zona de exclusão coletiva. 

Os relatos dos estudantes das redes de escolas públicas em zonas de conflito entre as forças do Estado e os grupos de criminosos de inúmeras ordens locais nos dão uma nesga do horror da situação, que na verdade extrapolam os campos relacionados à Educação, propriamente dita. São conversas obtidas em sala de aula entre alunos e professores que atingem diversas camadas, indo da revolta à emoção em questão de minutos, e absolutamente compreensíveis a um grupo de indivíduos que, ainda em idade escolar, não deveriam ter de escolher fugir ou denunciar a violência que nos assola. Em mais de um sentido (e sem avançar em uma seara educacional – mas, por quê não?), Hora do Recreio é um documento que muito em breve tem chances de se mostrar histórico, pela veemência do que é denunciado, onde o panfleto não consegue alcançar. 

Paralelo ao dispositivo escolhido com precisão por Murat como base de sua obra, a metalinguagem se deixa abraçar por Hora do Recreio, tornando a experiência do filme ainda mais instigante. Para certificar-se das necessidades do filme, a autora e sua equipe precisam burlar questões burocráticas para a realização do mesmo, e esse é um dos pontos nevrálgicos aqui. A mesma violência e ausência de políticas públicas eficientes para sanar tais questões, que são o cerne da discussão social do filme, é a responsável por paralisar o andamento da produção e criar também uma nova perspectiva de inclusão. Com isso, o título avança sempre na direção de encruzilhadas que não se fecham, e impedem a produção de tomar um corpo maior, e essa também acaba se tornando uma linha narrativa do roteiro, em cadência com tudo o que se apresenta de maneira grave. 

Enquanto tenta se apossar do sentimento de impunidade e impotência que tais situações provocam, através da opressão sofrida que levam a implosão de alguns em tela, Hora do Recreio transforma a opressão da violência em performance. A tela é invadida por alunos transformados em dançarinos, em momentos de beleza endurecida, que nos congelam em torno do que é encenado; são corpos brutos em movimentos de luta, quase como se estivéssemos assistindo a uma dança de guerra prestes a eclodir. A lente de Bacco Andrade move-se com essa mesma força estética, para construir um mundo onde o artifício invade os espaços de refúgio e transforma-se em conflito, em associação com o que é simbólico. 

A reta final de Hora do Recreio dilui um pouco da força do conjunto ao transformar mais uma vez essa representação. Ao carregar o livro ‘Clara dos Anjos’, de Lima Barreto, para uma montagem teatral em versão fiel (ou seja, com sua proposta na íntegra), o filme desloca seu olhar. Ainda que violências de origens racistas possam encontrar comunicação através dos tempos, aqui a história da ficção soa como um apêndice dentro obra, onde a denúncia é válida mas a conexão é esvaziada. Resta ao espectador conectar-se exclusivamente com sua visão documental, que ainda é petardo de uma diretora em constante ebulição e que, diferente de grande parte de nossa magnífica rede de cineastas femininas, ainda consegue manter regularmente a comunicação de uma obra que olha para o ontem para exemplificar o hoje. 

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