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“O Extermínio da Cegonha” discute o poder da tecnologia na criação de relações, afetos e escolhas

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Divertido, provocador e atual. Assim pode ser entendido “O Extermínio da Cegonha” propõe um encontro entre gerações que pensam e sentem o mundo de maneiras muito diferentes, trazendo à cena tensões que atravessam tecnologia, memória, desejo e responsabilidade. Escrita e dirigida por Pedro Uchoa, que também integra o elenco ao lado de Higor Campagnaro, Jean Marcel Gatti, Julia Limp e Nara Parolini, a montagem tem como ponto de partida a investigação do poder da tecnologia e as consequências das interferências tecnológicas no comportamento da sociedade atual.

Na trama, Isabel decide passar o feriado de finados em sua cidade natal com seu namorado, seu cunhado e sua irmã mais nova. Porém, um reencontro a princípio casual com Samuel, seu amigo da infância, desencadeia acontecimentos que trazem à tona fantasmas do passado, revelando conflitos e memórias irrebobináveis. A peça coloca uma lupa nos atritos entre a realidade analógica e digital, falando de uma geração que lida naturalmente com aplicativos e smartphones, mas que cresceu numa infância dividindo um telefone fixo com a família toda. A irmã caçula Madá, típica figura da geração Z, cria o contraponto do olhar do nativo digital, porém assim como os demais personagens e espectadores, vive numa sociedade onde a vida é registrada em stories e a emoção é medida por engajamento.

Além da crítica a esses novos comportamentos, outros assuntos também sobem ao palco, como responsabilidade emocional, silenciamento feminino, consciência de privilégios e as diferenças geracionais, que são o reflexo da evolução contínua da sociedade. Por meio de uma narrativa contemporânea, o espetáculo investiga os conflitos humanos atravessados por essas transformações invisíveis e revela como a transição analógica-digital redesenha o modo como criamos vínculos, gestos, ritmos, afetos – e como permanecemos na memória alheia.

O processo da escrita começou há mais de 10 anos, mas, sendo um texto que reflete com verossimilhança as vivências tecnológicas inerentes à maioria dos contemporâneos, o avanço da tecnologia, ponto central da história, fez com que a trama fosse algumas vezes adaptada. E como ela também vem redefinindo como vivemos em comunidade, a peça observa e acompanha essa realidade, fazendo com que o público seja provocado a refletir sobre como estamos vivendo, nos comunicando e construindo nossas relações.

“A cada gaveta, eu percebia que o mundo tinha avançado alguns passos e o texto precisava acompanhar esse deslocamento. Ele nasceu em outro momento histórico, quando muitas das questões digitais que hoje parecem centrais ainda estavam em formação. Ao longo desse tempo, o texto não ficou parado. Ele foi atravessado pelas transformações do mundo e pelas minhas próprias. O tempo trouxe um diálogo vivo com aquilo que eu ia escrevendo e funcionou como um coautor silencioso, tensionando ideias, aprofundando personagens e deixando que as imagens amadurecessem, até encontrarem a forma que têm hoje”, analisa Pedro Uchoa.

No processo de atualização do texto a tecnologia deixou de ser apenas pano de fundo e passou a ser estrutura dramática. Com isso, os conflitos geracionais ficaram mais evidentes e certas tragédias, que antes pareciam exagero, se tornaram plausíveis. “As renovações tecnológicas alteraram profundamente o comportamento humano, em uma velocidade tão vertiginosa que se tornou urgente registrar em cena este nosso tempo. Diante dessa aceleração, o teatro tem que assumir quase uma função provocativa, criando uma experiência que nos permita reconhecer o impacto dessas transformações em nossas escolhas, afetos e conflitos. Uma experiência que não compete com a tecnologia, mas contracena com ela”, aponta Uchoa.

Para o diretor e autor, é impossível falar da vida sem tratar de assuntos que nos urgem como sociedade. “A tecnologia hoje não é uma ferramenta, é um território. Então, quando usamos dramaturgicamente este território para criarmos uma dramaturgia que dialoga com o hoje, com nosso novo letramento, após criação de palavras que nem existiam no nosso dicionário, isso é também uma responsabilidade ética. Existe o desafio de tratar de assuntos tão atuais sem cair em respostas fáceis. A peça nasce desse desejo de pensar o presente com complexidade poética, mas sem simplificar de forma leviana os conflitos que nos atravessam”, pondera Pedro.

Com linguagem direta, a encenação mistura elementos de realismo e poesia, transita entre o trágico e o cômico, e propõe uma linguagem acessível e fragmentada, em sintonia com a subjetividade do tempo presente. Com início em um karaokê interativo – onde a plateia é instigada a cantar e enviar suas músicas via QR Code – o espetáculo já rompe com a quarta parede e convida o público a se tornar testemunha ativa de uma história que também poderia ser a dele. Ao mesmo tempo, instaura-se uma quebra de uma quarta parede digital, quando o público interage em tempo real com o perfil do espetáculo no Instagram para escolher sua música, ele participa fisicamente e virtualmente da experiência teatral.

“Desde a primeira cena o público deixa de ser apenas espectador e passa a compartilhar a experiência. Canta junto, ri, se reconhece e, aos poucos, percebe que é testemunha nas questões que a peça aborda. É um trabalho que mistura humor e vertigem, vulnerabilidade e tecnologia. Me interessa fazer um teatro que afete a plateia, que provoque uma reflexão nos mais profundos paradigmas e use o teatro para pensar a própria vida. Criamos toda noite uma espécie de pacto silencioso que se estabelece cada vez que toca o terceiro sinal, cada vez que um elenco invoca merda. Quando faço teatro, faço para o outro”, encerra Pedro Uchoa.

SERVIÇO Temporada: 1º a 26 de abril de 2026 / Quarta-feira a Sábado às 19h e Domingos às 18h / Ingressos disponíveis na bilheteria física ou no site do CCBB (bb.com.br/cultura) / Classificação Indicativa: 14 anos / Centro Cultural Banco do Brasil (Rua Primeiro de Março, 66 – Centro)

Rota Cult
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Redação do site E-mail: contato@rotacult.com.br

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