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O Testamento de Ann Lee: Amanda Seyfried realiza sua emancipação narrativa

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Assim que surgiu no último Festival de Veneza, O Testamento de Ann Lee confirmou o estranhamento que sua narrativa já apontava desde o anúncio da produção. Eram muitos filmes em um: um musical, uma investigação biográfica, um retrato de fatos que envolviam o surgimento de um paralelo religioso. O resultado desse estranhamento foi traduzido pela maneira como o filme foi recebido na competição, e que se repetiu na temporada de prêmios estadunidense: a estranheza inicial ocupava todos os lugares e deixava no ar mais perguntas que respostas. O que é uma certeza dentro do que vemos é a excelência estética apresentada, e que ousa avançar em discussões sobre misoginia e machismo mesmo que antes dos termos ganharem difusão. 

A capitã do projeto é Mona Fastvold, nada mais que a diretora de Um Fascinante Novo Mundo, esposa de Brady Corbet, que divide os projetos com ele; por exemplo, ela foi indicada ao Oscar pelo roteiro de O Brutalista. Seu trabalho aqui é reconfigurar Ann Lee, uma líder religiosa no século 18 que acaba por criar os Shakers, ou a Sociedade Unida dos Crentes na Segunda Vinda de Cristo. Sem apelar para o exotismo fácil, O Testamento de Ann Lee não bebe de uma fonte de desconhecimento para valer suas ações. Estamos diante de uma criação estética que já imprime suas obsessões particulares, e que funciona muitas vezes com uma ideia de parábola social. 

O social do qual estamos falando, dentro da produção, é com esse esquema de leitura específica de uma mulher que não teria como ser lida de maneira simples. A partir de uma forma que muitas vezes bebe na surrealidade, O Testamento de Ann Lee também cria uma lógica própria para externalizar sua busca narrativa. O filme entende que seu objeto de análise não pode ser encarado de maneira simplificada, com isso partindo para uma proposta cuja disrupção é um cerne buscado. O que nasce daí não é um musical tradicional, ou uma biografia que siga um olhar já visto antes; a ideia é ocupar um espaço novo do qual o Cinema ainda não enxerga de maneira segura. 

Com as rédeas febris de uma afirmação estroboscópica, O Testamento de Ann Lee se realiza enquanto projeção de delírio, na linguagem que se utiliza e no padrão que parece sonhar incorporar. Não há preocupação esteticamente fiel a determinada porção cinematográfica, porque Fastvold compreende sua busca como original e desbravadora dentro de um sistema onde a norma precisa ser re-interpretada. A diretora e seu co-roteirista Corbet são parcialmente absorvidos pelos desejos de uma realização que se apossa do convencional e cospe de volta um teor novo. Mas não é totalmente verdade também que o filme esteja partindo de um lugar desconhecido; o filme é uma tentativa bem sucedida de releitura de códigos de gênero, sem se importar com qualquer tipo de regra pregressa, isso sim. 

Aliado a esse caráter cheio de frescor, o que Amanda Seyfried realiza em cena é também refrescante. A atriz indicada ao Oscar por Mank é uma válvula à procura de emancipação narrativa, que se desenvolve à margem do que esperamos de um campo que tentaria capturar a essência não de uma ideia prévia, mas de alguém verdadeiro. O que salta de suas decisões (e que, obviamente, também é uma construção coletiva para o projeto) é bonito e inesperado, e assim como o filme, não tem uma paleta segura para o apoio; esse provavelmente é o motivo pelo qual um filme fora do esquadro permaneceu órfão de reconhecimento por onde passou. Ao tentar encapsular sua imensa liberdade, tanto o filme quanto o olhar crítico da análise parecem tentar entender e se situar na órbita proposta. 

O estranhamento em Hollywood geralmente é recompensado com o afastamento gradual, e esse é o preço que sempre será pago pela ousadia. Muito menos seguro do que é vendido pela indústria, O Testamento de Ann Lee permite uma leitura que não interessa ao Cinema bancar, principalmente nas condições em que é lido. Trata-se de um olhar feminino e feminista a respeito de uma mulher que não se dobrou ao que é esperado ao gênero há mais de 300 anos atrás, e entrega uma visão igualmente desafiadora sobre sua personagem. Pode não ser o filme mais fácil e sossegado que iremos testemunhar (e o lançamento em circuito brasileiro após o filme passar em branco pelas premiações é uma celebração por si só), mas quem disse que o Cinema ainda precisa de filmes fáceis e sossegados? 

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