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“Os Olhos de Nara Leão” faz evocação à Nara Leão com interpretada delicada de Zezé Polessa

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Qual se via em “Shirley Valentine” (1989), filme de Lewis Gilbert, a Nara Leão de Zezé Polessa, na atual empreitada teatral de Miguel Falabella, pergunta-se (do seu jeitinho, em bom português) onde anda “The Girl Who Used to Be Me”. No longa-metragem que rendeu uma indicação ao Oscar a Pauline Collins, embalada na canção supracitada de Marvin Hamlisch, a protagonista se desenraiza para poder pertencer… a um novo tempo. Nara, também.

Miss Valentine partia de uma condição de não pertencimento, na rotina manhosa do dia a dia, para uma Grécia temperada com as especiarias do olhar alheio – o que a fazia ser vista, o que a fazia reviver. A Nara de Zezé Polessa parte do Infinito… para o mundo. No engenho dramatúrgico do autor de “Querido Mundo” e “A Partilha”, a cantora despenca do que se pode chamar de Eternidade (ou seria melhor chamar de Futuro?).

Zezé Polessa retoma no palco a relação de amor de Nara Leão, que marcou toda a sua presença carnal aqui neste plano: a paixão pela palavra. Cantando dígrafos, encontros consonantais, silepses e metonímias, Nara fez a langue virar parole, numa fricção poética.    

A diferença entre ela e a Shirley Valentine do cinema (e do teatro) é o fato de esta última “ter saído de cena sem um ruído sequer, e ninguém notou que ela estava por perto”. É o que diz (na tradução) a letra de Hamlisch: “only the moon remembers her at all”. 

Obviamente, o Brasil não se esqueceu de Nara, a julgar a polêmica recente acerca da letra “Com Açúcar, Com Afeto”, que Chico Buarque compôs, mas desistiu de cantar pra sempre, patrulhado pelos AITs (aparelhos Ideológicos) althusserianos da contemporaneidade. foi, certamente, uma escolha ética.

“Os Olhos de Nara Leão” comenta sobre esse episódio, mas sem delonga. Levanta-se a lebre num momento em que Polessa já botou a plateia no bolso, falando de seus tempos de menina e da relação com a imã, “A” Danuza (modelo e colunista), enquanto brinca com a caixa cênica da cenografia de Marco Lima, bem alinhavada pelo desenho de luz de Cesar Pivetti. 

A caixa é o mote para a persona Nara (já devidamente encostada em sua intérprete) discorrer sobre a fronteira tênue entre o Ontem e o Amanhã. “A finitude está sempre aí. O problema é não ter passado”, diz a leoa Leão.

Assim como Chico, de quem elogia os olhos de ardósia, a própria Nara afirma-se, a certo ponto, ao dizer: “Sou lembrada pelas minhas escolhas”. Parte dessas decisões passam pelos sucessos “A Banda”, “Diz Que Fui Por Aí”, “Corcovado” e “Marcha da Quarta-Feira de Cinzas”. Todos são revivificados docemente por Polessa em cena, sob a fina direção musical de Josimar Carneiro.

Espartano, o desenho de som de Arthur Ferreira e João Gabriel Mattos esquadrinha, com perfeição, a linha de jukebox do espetáculo. A peça se conjuga com uma linhagem de trabalhos em tom de biopic de Miguel Falabella sobre aves canoras inesquecíveis (como Elvis Presley, Martinho da Vila e, agora, Nara). Nela, o figurino apolíneo de Nathália Duran veste (delicadamente) Zezé Polessa qual fosse uma Peggy Sue a saltar entre o “já foi” e o “já é”, numa linha proustiana de rememorar a vida… de rememorar o país. 

Aliás, a peça faz uma dulcíssima homenagem a Cacá Diegues (cineasta morto em 2025, que foi marido de Nara e teve uma filha e um filho com ela), além de uma série de outras referências ao Cinema Novo e como os amores de Nara Leão, tornam esse monólogo musical essencial para compreender a História Moderna da Arte Brasileira entre os anos 1950 e 60, entre a Bossa Nova e Glauber Rocha. Além disso, a menção a Carlos Drummond de Andrade e Baudelaire (cada qual em seu quadrado, mas ambos avessos aos classicismos) celebra a moderna forma de criar. No caso de Nara, seria a moderna forma de cantar, e de amar e de ser (eterna).

Saiba mais sobre a peça!

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